11 de mar de 2011

A Revolta da Chibata


UM VERDADEIRO HERÓI GAÚCHO E BRASILEIRO






João Cândido Felisberto, nascido em Encruzilhada do Sul (Província do Rio Grande do Sul),em 1880. Filho de João Cândido Felisberto e Inácia Felisberto (escravos libertos), alistou-se na Marinha do Brasil  em 1984 e foi um dos líderes da Revolta da Chibata.

Marinheiro João Cândido.
HISTÓRICO DA REVOLTA DA CHIBATA
A Marinha de Guerra do Brasil foi uma das instituições na qual o comportamento escravista dos seus superiores mais se evidenciou mesmo após a abolição. Mantinha o uso do açoite como medida disciplinar e os marinheiros negros continuavam a ser açoitados às vistas dos companheiros, por determinação da oficialidade branca, como no tempo em que existia o pelourinho.
Em 1908 João Cândido foi para a Inglaterra acompanhar o final da construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro. Neste episódio tomou conhecimento do movimento realizado pelos marinheiros britânicos reivindicando melhores condições de trabalho. Entre os marinheiros brasileiros já havia uma insatisfação com os baixos soldos, com a alimentação ruim e, principalmente, com os degradantes castigos corporais.


Inspiração
Inspiração: marinheiros russos do encouraçado Potemkin


Em 16 de novembro de 1910, um dia após a posse do Marechal Hermes, o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido com 250 chibatadas, aplicadas na presença de toda a tripulação do encouraçado Minas Gerais.

Marcelino Rodrigues, o último marinheiro a receber chibatadas na Marinha de Guerra do Brasil.

Assim no dia 22 de novembro de 1910, João Cândido deu início à chamada Revolta da Chibata, assumindo o comando do encouraçado Minas Gerais, pleiteando a abolição dos castigos corporais na Marinha.



Encouraçado Minas Gerais

Na época foi identificado pela imprensa como O Almirante Negro.  Por quatro dias, os navios de guerra São Paulo, Bahia, Minas Gerais e Deodoro apontaram seus canhões para a Capital Federal – Rio de Janeiro.


Charges na imprensa.

No ultimato dirigido ao Presidente Hermes da Fonseca, afirmaram os marinheiros:
"Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira".





Conforme relatos a  noite foi tensa, a população do Rio de Janeiro pôde, então, ver os navios de guerra desfilando pela Guanabara, evoluindo com maestria entre as ilhas Fiscal, das Cobras e Villegagnon com bandeiras vermelhas tremulando. A cor mostrava que a embarcação estava rebelada e convocava os marinheiros para a luta. Os corpos dos mortos em combate foram depositados no cais. Em terra, a população estava assustada com os acontecimentos. Famílias inteiras deixaram o Rio de Janeiro temendo um bombardeio. Foram dados alguns  disparos de advertência pelos navios revoltosos que também fizeram vítimas civis.


Duas crianças morreram, no alto do morro do Castelo, atingidas pelos disparos de advertência dados durante a revolta. Os marujos fizeram subscrição para indenizar os familiares.

O governo até tentou se mobilizar, mas o poderio nas mão dos revoltosos era muito maior e não estava ao alcance da artiraria em terra.


Nem mesmo do alto do morro do Castelo as tropas do Exército conseguiram atingir os navios rebeldes.


A ANISTIA MASCARADA

Charges na imprensa.

Depois de muitas reuniões políticas, nas quais participou Rui Barbosa, que condenou os “abusos com os quais, na gloriosa época do abolicionismo, levantamos a indignação dos nossos compatriotas”, foi aprovado um projeto de anistia para os amotinados.
Embora a rebelião tenha terminado com o compromisso do governo federal em acabar com o emprego da chibata na Marinha e de conceder anistia aos revoltosos, João Cândido e os demais implicados foram detidos.  As forças militares, não-conformadas com a solução política encontrada para a crise, apertam o cerco contra os marinheiros. João Cândido, sentindo o perigo, ainda tentou procurar Rui Barbosa e Severino Vieira, que defenderam a anistia, mas sequer foram recebidos.

João Cândido saindo escoltado do Hospital Central do Exército.

Uniram-se civis e militares para desafrontar os “brios da Marinha de Guerra” por eles atingidos. A anistia fora uma farsa para desarmá-los, são acusados de conspiração. Espalham-se boatos de que haveriam outras sublevações. Afirmavam que a guarnição da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, havia se sublevado. Pretexto para que a repressão se desencadeasse violentamente sobre os marinheiros negros. O presidente Hermes da Fonseca  pretendia decretar o estado de sítio, a fim de sufocar outros movimentos democráticos que se organizavam. Os poucos sublevados daquela ilha propõem rendição incondicional, o que não é aceito. Segue-se uma verdadeira chacina. A ilha é bombardeada até ser arrasada. Estava restaurada a honra da Marinha.


Repressão em massa: após a Revolta da Chibata, marujos são conduzidos presos pelas ruas da então Capital Federal.


MORTE A CAMINHO DA AMAZÔNIA

João Cândido e os seus companheiros de revolta são presos e o governo e a Marinha resolvem exterminar fisicamente os marinheiros.
Alguns foram embarcados no navio Satélite rumo ao Amazonas. A Amazônia da década de 1900 era um lugar inóspito, com doenças e perigos pouco conhecidos do resto do país. No entanto, alguns desbravadores estavam por lá, apoiados em mão-de-obra barata, quase escrava, para explorar a floresta. Os grupos se dividiam entre ricos donos de seringais e desbravadores ligados ao governo, que queriam promover o desenvolvimento no território com iniciativas como a construção de linhas telegráficas na região, orquestrada pelo coronel Rondon, e a lendária Estrada de Ferro Madeira Mamoré. E era para essas obras de grande porte, no meio da selva amazônica, que seguiam muitos dos cidadãos indesejados do novo regime, detidos na Capital da Nação. Os acontecimentos de dezembro de 1910 anteciparam o despejo de mais um lote desses desterrados na região.


EFMM

Embora não tivesse decretado o Estado de Sítio, o governo havia lotado as prisões cariocas, e se livrar daquelas pessoas tornou-se uma necessidade para as autoridades. Assim como acontecera antes, com os participantes da Revolta da Vacina, em 1904, o destino estava definido. Iriam trabalhar na extração da borracha e nas obras de infra-estrutura da Amazônia.
Era noite de 24 de dezembro quando o navio Satélite partiu secretamente do Rio de Janeiro, levando 441 pessoas. No relatório do comandante do navio, constam 105 ex-marinheiros e rebeldes do Batalhão Naval, 44 mulheres e 292 vagabundos, isso, conforme o documento oficial. O nome de João Cândido chegou a ser incluído na lista do Satélite, mas foi retirado. Se fuzilado e jogado no mar, como foram dez de seus companheiros de revolta, segundo o diário de bordo do Satélite, poderia ter virado um mártir.
Alguns marujos tinham uma cruz na frente do nome. Partiram do Rio, mas nunca chegaram à Amazônia, foram fuzilados durante o trajeto de mais de 30 dias. Em alto mar, as contas da Revolta da Chibata foram acertadas. Marinheiros pagaram com suas vidas. Enfurnados no porão da embarcação, os que resistiram concluíram o acerto em solo amazônico, com temperatura de mais de 40 graus, sem recursos nem ajuda médica, sem guias ou orientação para a sobrevivência.
A chegada na Amazônia chocou quem viu de perto a situação dos desterrados. Numa carta ao então senador Rui Barbosa, Booz Belfort de Oliveira, integrante da comissão do coronel Rondon, contou o que viu. O relato foi publicado no livro de Edmar Morel:


“(...) os desgraçados foram guindados, como qualquer coisa, menos corpos humanos, e lançados ao barranco do rio. Eram fisionomias esguedelhadas, mortas de fome, esqueléticas e nuas, como lêmures das antigas senzalas brasileiras. As roupas esfarrapadas deixavam ver todo o corpo. As mulheres, então, estavam reduzidas às camisas”.

De acordo com os relatos de Oliveira, despejados na Amazônia, homens e mulheres do Satélite foram leiloados como num leilão de gado, em lotes. Os seringueiros olhavam e tentavam encontrar na exposição dos corpos quase nus algum sinal de que o dono daquele corpo lhes pudesse ser útil no seringal. Os que sobraram foram entregues à Comissão Rondon. Mesmo acostumados a servir, muitos ex-marinheiros se rebelaram contra as condições de trabalho na floresta. Foram fuzilados na frente de toda a comissão para que servissem de exemplo. E Oliveira completa, concluindo o destino dos que embarcaram no Satélite: “(...) e desta maneira os outros todos foram dizimados ou pelas balas ou pela malária”. Desapareceram em meio à floresta.




ILHA DAS COBRA  OU A ILHA DAS MORTES


A Ilha das Cobras foi também palco de torturas e assassinatos de marinheiros rebeldes O Correio da Manhã denunciou torturas e assassinatos de marinheiros na ilha.


Os marinheiros, porém, tinham destino diferente dos demais embarcados, João Cândido, que não embarcou no Satélite, foi recolhido juntamente com alguns companheiros  a uma masmorra da Ilha das Cobras, onde viveram como animais. Dos 18 recolhidos ali, 16 morreram.
Segundo relatos do próprio João Cândido ao jornalista Edmar Morel, no livro A Revolta da Chibata:


“A impressão era de que estávamos sendo cozinhados dentro de um caldeirão. Alguns, corroídos pela sede, bebiam a própria urina. Fazíamos as nossas necessidades num barril que, de tão cheio de detritos, rolou e inundou um canto da prisão. A pretexto de desinfetar o cubículo, jogaram água com bastante cal... o líquido, no fundo da masmorra, se evaporou, ficando a cal. A princípio, ficamos quietos para não provocar poeira. Pensamos resistir os seis dias de solitária com pão e água. Mas o calor, ao cair das 10 horas, era sufocante. Gritamos. As nossas súplicas foram abafadas pelo rufar dos tambores. Tentamos arrebentar a grade... Nuvens de cal se desprendiam do chão e invadiam os nossos pulmões, sufocando-nos. A escuridão, tremenda. A única luz era um candeeiro a querosene. Os gemidos foram diminuindo, até que caiu o silêncio dentro daquele inferno”.
“o calor da cela passava dos 40 graus centígrados. Corroídos pela sede, os presos chegaram a beber a própria urina. Depois tiveram seus pulmões infiltrados pela cal jogada com o pretexto de desinfetar o ambiente. ”

Os oficiais de plantão na noite do massacre disseram ter ouvido barulhos estranhos vindos da solitária, mas nada podiam fazer. A chave da cela estava em poder do comandante Marques da Rocha, que pernoitava no Clube Naval, no Centro do Rio de Janeiro, no momento do desespero dos marinheiros. Quando a solitária foi aberta, no dia 27 de dezembro, segundo João Cândido, os corpos beiravam a podridão. Os cadáveres foram retirados, a cela foi lavada, desinfetada e os sobreviventes, João Cândido e o soldado naval João Avelino Lira, jogados novamente na prisão. A causa da morte dos dezesseis, segundo o laudo oficial, foi por “insolação”.
As alucinações de João Cândido foram o motivo para a internação no Hospital Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, em abril de 1911. O ofício enviado pela Marinha aos médicos do hospital relatava que o marinheiro sofria de “astenia cerebral, com melancolia e episódios delirantes”.
Em julho de 1911, João Cândido recebeu a notícia de que voltaria à prisão na Ilha das Cobras. Era o retorno para o inferno. O diretor, Juliano Moreira, atestava que nada mais justificava a permanência de João Cândido no hospital de alienados. Ele não apresentava mais nenhuma perturbação mental. E o marinheiro retornou à Ilha das Cobras, desta vez foi colocado na mesma cela onde anos antes estivera preso Tiradentes, o herói da inconfidência.
João Cândido ficou 18 meses preso na Ilha das Cobras. Os companheiros sobreviventes também amargaram o isolamento. Os presos eram mantidos incomunicáveis. Numa demonstração de humanidade, a Irmandade Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Rio de Janeiro, contratou três dos melhores advogados criminalistas do país para defender os marinheiros encarcerados. Evaristo de Morais, Jerônimo de Carvalho e Caio Monteiro de Barros foram os advogados de defesa de João Cândido e de outros líderes da revolta, entre eles Francisco Dias Martins e Gregório do Nascimento.

Segundo Edmar Morel, da lista de 70 marinheiros indiciados pelo código penal da Marinha, restavam apenas dez prisioneiros na Ilha das Cobras. Os outros 60 nomes eram dados como desaparecidos, mortos por insolação ou fuzilados no navio Satélite.  João Cândido assumiu toda a responsabilidade pela revolta da esquadra. O processo teve início em junho de 1912 e foi concluído cinco meses mais tarde. Com destreza, os advogados provaram a inocência do marinheiro e de seus companheiros.




O MARINHEIRO TEM DE VIVER LONGE DO MAR

João Cândido carregando cestos de peixe em 1937: durante quatro décadas sustentou a numerosa família com escasso dinheiro, através da pesca.
Com a saúde avariada, sem dinheiro, casa ou família, João Cândido, pensou em voltar para o Rio Grande do Sul. Escreveu para amigos de infância, mas as
respostas às cartas nunca vieram. Começou, então, a procurar trabalho no Rio de Janeiro. Depois de trabalhar em navios particulares, no Brasil e no exterior, sentiu a pressão da Marinha. Bateu em portas de várias embarcações. A resposta era sempre negativa. Quando conseguia um trabalho, era só de ida. No desembarque, era dispensado. O líder da revolta da esquadra, e exímio navegador, não tinha lugar no timão.   Foram suas companheiras, Marieta, Maria Dolores e Ana, com quem viveu até a morte Então, o trabalho no mercado de peixe se tornou a fonte de renda para o sustento da família, que crescia com o passar dos anos. João Cândido se casou três vezes.
O marinheiro teve uma vida conjugal também marcada por perdas e tragédias. Em 1913, o marujo encontrou o amor e casou-se pela primeira vez. A esposa faleceu quatro anos depois. Viúvo, casou-se novamente e teve quatro filhos. A segunda mulher suicidou-se ateando fogo na roupa. Dez anos mais tarde, uma filha repetiria o ato da mãe. Ao todo, João Cândido teve 11 filhos.
ã

João Cândido foi expulso da Marinha,  nada recebeu do governo federal não teve seu cargo de volta, não teve direito à pensão, mesmo após ter servido ao país por dezessete anos. Em 1959, a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul concedeu uma pensão de dois salários para o marinheiro gaúcho. A pensão foi o único dinheiro que João Cândido recebeu dos cofres públicos após a revolta de 1910. O recurso era insuficiente para sustentar a família, tendo João Cândido, mesmo doente, que trabalhar até o fim da vida. Sem aposentadoria, teve que trabalhar duro para custear as despesas da sua sofrida terceira idade.


Na varanda de sua casa nova, na Baixada Fluminense, o líder da Revolta da Chibata gostava de conversar e receber visitas.


O MARINHEIRO TORNA-SE INTEGRALISTA
Em 1933 foi convidado e aderiu à Ação Integralista Brasileira, movimento nacionalista de direita inspirado no fascimo italiano fundado em1932 pelo escritor Plínio Salgado. Chegou  a ser o líder do núcleo Integralista da amboa, bairro portuário da cidade do Rio de Janeiro. Em entrevista ao historiador Hélio Silva, gravada em 1968 e arquivada no Museu da Imagem e do Som (MIS), João Cândido declarou manter sua amizade com Plínio Salgado e de ter orgulho em ter sido integralista. O Integralismo permitia que mulheres e negros se filiassem ao partido, no que se diferenciava do nazismo. João Cândido, que era sobretudo um ex-militar que sonhava voltar à Marinha de Guerra, foi muito assediado por parte de oficiais da Marinha para que fizesse parte do movimento integralista, com a promessa de reintegrá-lo. Muitas personalidades na época aderiram ao Integralismo: o líder negro Abdias Nascimento e o bispo Dom Hélder Câmara são alguns exemplos. Em 1959 voltou ao Sul do País para ser homenageado, mas a cerimônia foi suspensa por interferência da Marinha do Brasil.

FALECIMENTO
Discriminado e perseguido pela Marinha até ao fim de sua vida, se recolheu no município de São João de Meriti, onde veio a se aproximar da Igreja Evangélica Metodista. Ali em sua casa passou mal e foi levado ao Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, onde viria a falecer de câncer, pobre e esquecido, em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos de idade.



Enterro de João Cândido debaixo de tempestade, durante a ditadura militar. À frente, segurando o caixão, o filho caçula Adalberto Cândido e o jornalista Gumercindo Cabral (de paletó) e, atrás deste, parcialmente encoberto, Edmar Morel.

HOMENAGENS
O marinheiro faleceu sem ouvir uma das mais belas homenagens que lhe foi feita, a música O Mestre-Sala dos Mares, composta por Aldir Blanc e João Bosco nos anos 1970 e imortalizada nas vozes de Elis Regina e do próprio João Bosco.  Na letra original, João Cândido era o Almirante Negro, o Dragão do Mar, que guiava poderosos navios de guerra com a dignidade de um mestre-sala. Mas o Brasil vivia a intolerância da ditadura militar, sob o comando do presidente Ernesto Geisel, e a música de Aldir Blanc e João Bosco parou na mesa dos censores.
A Letra censurada:

No recorte de jornal a letra original
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar, na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam nas costas dos santos
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava, então!
Glória aos piratas, às mulatas, às baleias!
Glória à farofa, à cachaça, às baleias!
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
(Mas, salve ...)

Veja a canção O Mestre Sala dos Mares, composição de Aldyr Blanc e João Bosco, na voz de Elis  Regina



O cineasta Silvio Tendler também chegou cheio de boas intenções. Filmou João Cândido no ano de sua morte, encontrou um velho sofrido, mas ao mesmo tempo íntegro. Recuperou material sobre a revolta e falou com quem já tinha escrito sobre o assunto. Seria o primeiro filme de Tendler, não fosse a ditadura. O material foi escondido e, posteriormente, destruído. Falar no nome de João Cândido era perigoso.


Mas ficou o curta Memórias da Chibata  de Marcos Martins.



Em 1985, a escola de samba carioca União da Ilha do Governador levou para a avenida Sapucaí, o sambódromo do Rio de Janeiro, um samba ancorado em dois assuntos, a música de Aldir Blanc João Bosco e a história de João Cândido. Jornais da época informaram que a escola de samba teve problemas com a Marinha, quando o tema do desfile foi apresentado. Diretores da agremiação foram chamados por autoridades. Os oficiais queriam saber como seria o desfile, se haveria ala com marinheiros sendo chicoteados, por exemplo. Apesar da boa intenção em homenagear João Cândido, o resultado, segundo reportagens de jornais da época, foi um enredo confuso, que falava mais da música, de Elis Regina, a principal intérprete da canção, do que do marinheiro e da Revolta da Chibata.
Em 2003, foi a vez da escola de samba paulista, Camisa Verde e Branco, homenagear João Cândido no Carnaval. A história do marinheiro e da Revolta da Chibata ganhou ritmo e alegoria. O desfile tinha sabor de vitória mesmo antes da apuração dos votos dos jurados, pois, anos antes, a ditadura militar havia censurado um enredo sobre João Cândido. Reportagens da época do desfile exaltavam a grandeza do carro que representava o encouraçado Minas Gerais. A agremiação ficou em sexto lugar.
Com a aproximação das comemorações dos 120 anos da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 2008, parlamentares passaram a pressionar para que o projeto que previa a anistia de João Cândido e seus companheiros, de autoria da senadora Marina Silva (PT-AC), fosse votado. O texto tramitava em Brasília desde 2002. Em fevereiro de 2008, o senador Paulo Paim (PT-RS) também havia defendido o projeto de Marina Silva e questionado o motivo de o texto estar parado na Câmara. No início de maio, o então ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Edson Santos, lembrou os feitos de João Cândido e dos marinheiros de 1910 e reforçou a importância de se votar o projeto da senadora. Na ocasião, o ministro pediu ao presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), que o texto fosse incluído na pauta do plenário. Para o ministro , a justificativa era única: João Cândido e seus companheiros aboliram a chibata da Marinha de Guerra brasileira. No dia 23 de julho de 2008, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, com veto ao pagamento de indenizações aos descendentes dos marinheiros, a Lei nº 11.756, que reconhece e restaura os direitos de anistia concedidos a João Cândido e aos seus companheiros em 1910. Segundo a assessoria de Marina Silva, o veto, no entanto, não impede os descendentes de entrarem na Justiça para pedir as compensações.


Em 2008 a Marinha tornou público seu ressentimento contra João Cândido, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou uma estátua em homenagem a ele, na Praça XV. Na ocasião, oficiais reclamaram e só se acalmaram quando conseguiram a garantia de que o monumento não ficaria de frente para a Escola Naval, situada ali perto. A estátua está voltada para o mar, lembra a Conen.
No ano de 2010 a Transpetro lançou ao mar o navio petroleiro João Cândido, o navio tem 247 metros de comprimento, casco duplo. A escolha do nome João Cândido também foi destacada na solenidade por meio do novo ministro da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, Eloy Moreira. Vale registrar que há pouco mais de um ano Lula participou de homenagem ao Almirante Negro inaugurando sua estátua na Praça XV, no Rio, que estava há anos guardada, supostamente porque não teria havido grande empenho da Marinha na realização desta solenidade.

Pois bem, agora João Cândido não está apenas nas “pedras pisadas do cais”,
com diz a maravilhosa canção de Bosco e Blanc.
Está na estátua e está cruzando mares levando para o mundo afora o nome de um de nossos heróis.



Petroleiro João Cândido.

Consultas
Mario Maestri. Cisnes Negros. Uma história da Revolta da Chibata. Editora Moderna,2000
Edmar Morel. A Revolta da Chibata.

Nenhum comentário:

Postar um comentário