11 de mar de 2011

Um Príncipe Africano em Porto Alegre


Príncipe Custódio

Poucos sabem, mas na virada do século XIX o Brasil e particularmente o Rio Grande do Sul serviram como morada de um personagem exótico e muito interessante de nossa História Afro-brasileira. Trata-se do Príncipe José Custódio Joaquim de Almeida, cujo nome original era Osuanlele Okizi Erupê, do Reino de Benin, na África. O príncipe Osuanlele teve de fugir para o Brasil devido a uma série de questões políticas que ocorreram em seu Reino decorrente, principalmente, do processo imperialista europeu infringido a maioria das regiões africanas durante este período, conforme a pesquisadora Maria Helena Nunes nos esclarece:
“Desde seu apogeu, nos séculos XVII e XVIII, o reino do Benin vinha experimentando uma longa decadência interrompida por períodos de ressurgimento. É nesse contexto que o sucessor do trono de Benin, Custódio Joaquim Almeida se tornaria um desafiante de seu pai, ganhando apoio dos chefes mais antigos, que teriam um voto mais decisivo na determinação da sucessão. Provavelmente em decorrência dos conflitos acerca do reinado, o príncipe fora enviado para à Europa, entre 1890 a 1894, para estudar. Com a expulsão do pai de Custódio do reino – o que desestabilizou a antiga ordem política – houve uma aproximação entre os britânicos e o príncipe Custódio. Para o estabelecimento de autoridade efetiva nas zonas ocupadas, os ingleses perceberam que só teriam organização política com intervenção dos chefes haviam detido autoridade no reinado anterior. Em razão disso, criara o Conselho dos Chefes, permitindo a ascensão ao poder daqueles que já captavam vantagens pessoais decorrentes da cooperação com os britânicos ressurgindo assim uma elite formada por ambiciosos políticos.
Conforme relatos de história oral é neste momento de conflito político que Custódio sai de Benin em direção ao porto de Ajudá, em Daomé. Os mesmos oficiais ingleses que escoltaram o príncipe espalharam pelas aldeias que seu rei havia fugido e se refugiado em colônias de domínio português. A notícia se espalhou por todos os reinos africanos, fazendo com que Custódio permanecesse por pouco tempo no Porto de Ajudá, pois temia por sua vida e da família, além de seu Conselho de Chefes.”


O PRÍNCIPE NO BRASIL

O príncipe Custódio chegou ao Brasil em 1898, inicialmente na Bahia, passa pelo Rio de Janeiro e, por fim, chega ao Rio Grande do Sul, em 7 de setembro de 1899 na cidade de Rio Grande. Fixou-se na cidade de Rio Grande  e mais tarde foi para a cidade de Bagé, onde ficou conhecido por manter viva a tradição religiosa do seu povo através das rezas dos ritos africanos, também demonstrou seus conhecimentos das propriedades curativas da flora por meio de ervas, atendendo muitas pessoas doentes que o procurava. Em 1900 mudou-se para Pelotas e em 1901 chegou a Porto Alegre. Segundo Maria Helena tal mudança de endereço ocorreu devido a amizade que passa a existir entre o príncipe e o então governador Júlio de Castilhos.


“As informações apontam que o governador procurou o nobre – já famoso por seus poderes religiosos – para curar-se de uma doença na garganta. Este seria provavelmente o motivo de aproximação entre Castilhos e Custódio. No entanto há quem diga que o príncipe lhe deu algumas orientações políticas a respeito do que estava acontecendo no Rio Grande do Sul e no Brasil”.

A autora cita que além de Júlio de Castilhos outros políticos importantes iriam consultar o príncipe Custódio.

“Segundo relato orais, Dona Carlinda, esposa de Borges de Medeiros, preocupada com a situação do marido vulnerável às lutas entre chimangos (republicanos) e os maragatos (federalistas), seguiu conselhos de políticos amigos e procurou o príncipe Custódio. Depois disso, Borges de Medeiros passou a ser um frequentador assíduo da casa do príncipe e suas festas”.



“O estadista Getúlio Vargas também fora orientado espiritualmente pelo príncipe, conforme relatos orais, realizando uma série de trabalhos no Palácio Piratini.



Gregório Fortunato (o Anjo Negro), guarda-costas de Getúlio Vargas, era responsável pelas “obrigações” do político”.



RITUAIS AFRICANOS NO COTIDIANO GAÚCHO

Tais relatos confirmam que a tradição cultural das comunidades de matriz africana com seus rituais e valores sagrados tiveram participação na vida da elite gaúcha e política do período. Conforme entrevistados existem “assentamentos de santos” em locais públicos de Porto Alegre, como as galerias do Palácio Piratini, feitosa pedido de ex-governadores.



Também há indicações de existir um Bará[1] assentado no Mercado Público de Porto Alegre e no antigo Patíbulo da Rua da Praia, onde hoje está o prédio do Terceiro Exército.







[1] Bará é nome de uma entidade cultuada no batuque, religião afro-brasileira do Rio Grande do Sul. Por várias características pertencentes aos homens, Bará se apresenta como o Orixá mais humano de todos os Deuses africanos, sendo sempre o primeiro Orixá a ser servido em qualquer obrigação, nele encontraremos um Orixá prestativo e presente, segurando todas nossas futuras necessidades, caso contrário devemos nos preparar, sem exagero, para alguma coisa desagradável. Como dono das chaves, dos portais, encruzilhadas, caminhos e comércio, deve sempre ter suas saudações, obrigações e cortes quando necessário, feitos em primeiro lugar caso contrário caminhos trancados, mas não devemos tachar o Orixá Bará de egoísta, para a segurança de nosso ritual é só serví-lo primeiro e assim nosso ritual estará bem encaminhado. É o Orixá responsável pela boa abertura dos trabalhos, esta para nossos negócios e vidas, destrancando caminhos e abrindo portas ou trancando e fechando, dependendo de nossos merecimentos e cumprimento de tarefas.


EXCENTRICIDADES


Em Porto Alegre o príncipe Custódio se instalou no bairro Cidade Baixa, na rua Lopo Gonçalves, número 498, onde os fundos davam para a Rua dos Venezianos, atualmente Joaquim Nabuco. Ali passou a viver com um fidalgo. A família do príncipe aos poucos foi crescendo e não demorou a atingir o número de 26 pessoas, sem contar os empregados em boa quantidade. A casa estava sempre cheia. O príncipe tinha oito filhos, três homens e cinco mulheres e para esses oito filhos mantinha quatro empregados, quando pequenos um para cada dois.




Nos fundos da propriedade o príncipe possuía sua caudelaria, onde possuía nada menos do que nove cavalos de raça que disputavam corridas. Para manter e cuidar esses animais havia um grupo selecionado de empregados sob a supervisão direta de Custódio, que se classificava como tratador. Em dias de sol o príncipe passeava pela cidade em sua carruagem com um a parelha de cavalos brancos, já nos dias de chuva utilizava cavalos negros.
Durante sua vida em Porto Alegre o príncipe Custódio promoveu inúmeras festas em sua casa que duravam até três dias. Nestas festas se comia e bebia do bom e do melhor, bebidas importadas da Europa sempre ao som dos tambores africanos que batucavam sem parar. Nesses dias o Príncipe recebia a visita de senhoras e cavalheiros ilustres da capital, além de pessoas ligadas a indústria e ao comércio que dele precisavam do apoio para evitar o perigo de greves.




Sua casa vivia sempre lotada por visitantes e por pessoas que lhe pediam auxílio. Todos ali ficavam até que quisessem ir embora. Entre os que viveram muito tempo junto ao príncipe estava um branco, descendente de alemães oriundo de São Sebastião do Caí, que tinha feito estudos de Medicina e dessa maneira o auxiliava no atendimento aos doentes que o procuravam em busca dos trabalhos religiosos. Com o tempo a rua Lopo Gonçalves passou a ser preferida pela gente de cor que procurava com isso acercar-se do homem que incontestavelmente era um líder de sua raça.
Para os rigores do inverno o Príncipe Custódio adotou o poncho gaúcho e um gorro que marcava a sua personalidade. Seus conhecimentos de idioma português não eram muito corretos, porém podia expressar-se fluentemente em inglês e francês, além de falar ainda vários dialetos das tribos africanas que havia governado. Durante sua vida no Brasil recebeu mensalmente do consulado britânico um saquinho cheio de libras esterlinas, cuja troca em mil-réis servia para manter a pequena corte da Rua Lopo.



Durante o verão o programa era ir para a propriedade de Custódio na Praia de Cidreira. Uma viagem feita em carretas puxadas por bois que durava mais ou menos uma semana, pois o príncipe parava em vários lugares onde era sempre recebido com festas e cerimonias religiosas regadas com muita comida e bebida, tudo pago pelo nobre visitante. As carretas carregavam seus familiares, amigos empregados e também todo o mantimento para viagem e estadia. Também eram carregadas de mantimentos para os animais, como sacos de milho e dezenas de fardos de alfafa para seus cavalos de corrida que também seguiam em viagem para que se banhassem no mar exigência de seu senhor.
Mas a maior festa que a Cidade Baixa presenciou foi o centenário do Príncipe Custódio, nesse dia muita gente foi abraçá-lo em sua casa. Quatro anos depois, no dia 26 de maio de 1936 o príncipe Custódio morreu. O velório e o enterro, lotados, seguiram conforme sua solicitação seguindo as tradições africanas, com muito batuque e trabalhos em intenção ao morto.





Com sua morte desapareceu uma das figuras mais enigmáticas que viveu em Porto Alegre e que sempre valorizou a religião de matriz africana. Ao longo do tempo tornou-se uma personalidade mítica.







Bibliografia
Maria Helena Nunes bacharel em Ciências Sociais, mestre em Antropologia com dissertação “O Príncipe Custódio e a Religião Afro-gaúcha”.
Sílvio Marcus de Souza Correa Práticas Aristocráticas e Lazeres Burgueses de um “Príncipe Negro” na República Velha.
http://iledeobokum.blogspot.com/2008/10/jos-custdio-joaquim-de-almeida-prncipe.html

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