11 de fev de 2014

Tragédia: a história de jovens uruguaios que sobreviveram a um acidente na cordilheira dos Andes

Numa sexta-feira 13, em outubro de 1972, jovens jogadores uruguaios de rúgbi se divertiam no bimotor que fretaram da Força Aérea. O time iria disputar um amistoso em Santiago, no Chile. Dias depois, perdidos na cordilheira dos Andes, se alimentariam dos corpos dos colegas de viagem.

Texto Tiago Cordeiro | 11/04/2013 18h16
A história começou no dia 12 de outubro. A tripulação saiu de Montevidéu, com destino a Santiago do Chile, mas, com o tempo muito ruim para atravessar a cordilheira dos Andes, parou para uma escala forçada na cidade argentina de Mendoza. O voo foi remarcado para o dia seguint
e, às 12h30. Os pilotos, Julio Ferrádas e Dante Lagurara, tentaram adiar a partida mais uma vez. Ao que os militares presentes responderam: "Ustedes son unos maricones". Por volta de 15h30, os pilotos pediram que os passageiros apertassem os cintos. O avião perdeu altitude uma primeira vez. Na segunda, foi arremessado contra uma montanha e explodiu. O rombo no casco foi preenchido pela neve.

Num primeiro momento, fez-se silêncio dentro da aeronave. Segundos depois, os sobreviventes, na maioria apenas com ferimentos leves, começaram a chorar e gritar. Havia sangue e corpos mutilados. Uma hora depois, a noite caiu. Naquele ponto, a 4 mil m de altitude, a temperatura chegava a -30 ºC. Encolhidos, os jovens se abraçaram dentro do casco.

O avião estava na região de Los Maitenes, do lado argentino dos Andes - os sobreviventes, tal como a equipe de resgate, acreditavam que o acidente havia acontecido do lado chileno. Antes da queda, os pilotos haviam informado a torre de comando que estavam sobre da localidade de Curico, um dado errado (o avião caiu a 90 km do local informado à torre de controle, em Santiago do Chile).

Nenhum militar estava vivo. Os sobreviventes eram jovens, na casa dos 22 anos, filhos da classe média alta uruguaia. Enquanto as buscas começavam no lugar errado, os menos feridos faziam um levantamento da situação. Um atleta que estudava medicina, Gustavo Zerbino, 19 anos, providenciou talas, enquanto outros separavam mantimentos. Era a época do governo de Salvador Allende no Chile e as notícias de racionamento de comida no país fizeram com que os jovens levassem um grande estoque, principalmente de chocolates e vinho. Apesar do esforço de Zerbino, 72 horas depois da queda, restavam 27 sobreviventes. Doze haviam morrido no acidente, outros 5 na primeira noite e um no dia seguinte.

O problema da comida estava temporariamente resolvido - e os sobreviventes acreditavam que o resgate não demoraria. Mas o gelo não servia como suprimento de água potável: ele queimava as bocas, já machucadas pelo frio. Com isqueiros, os jovens passaram a derreter neve e a armazená-la em potes. Para economizar fluido, queimavam todos os papéis que encontravam. Menos dinheiro: certos de que seriam localizados, não queriam desperdiçar suas notas. Depois o método evoluiu: a neve foi colocada sobre chapas de metal, para derreter ao sol, e a água era armazenada em garrafas de vinho vazias. O grupo conseguia produzir de 2 a 3 litros diários de água.



Os dias passavam rápido e as noites eram longas; começavam por volta das 16h30 e só acabavam perto das 10h. Os jovens dormiam protegidos pelos restos do avião. Quando se sentiam mais animados, cantavam e contavam piadas. Liliana Methol, a única mulher que escapara com vida, tinha 35 anos e tratava a todos como filhos. Em grupos de dois ou três, os jovens tentaram fazer excursões rápidas em busca de socorro.

Uma dessas incursões levou à parte traseira do avião, onde havia um aparelho de rádio e mais caixas com cigarros e mantimentos. Foi quando as esperanças diminuíram: ao sintonizar uma emissora de Montevidéu, descobriram que as buscas tinham sido encerradas 8 dias após o acidente. Para todos os efeitos, estavam desaparecidos e não seriam mais procurados.




Couro das roupas

Depois de dez dias, toda a comida acabou. Não se sabe bem como apareceu a sugestão de comer carne humana. "Uma pessoa comentava aqui, outra ali. Quando nos demos conta, estávamos convencidos de que, se necessário, teríamos que nos alimentar do corpo de quem não sobreviveu", diz Carlitos Páez, que era estudante de agronomia e hoje é dono de uma agência de publicidade.

Não foi uma decisão imediata: na falta de comida e de animais para caçar, os sobreviventes haviam tentado comer até o couro das roupas. A iniciativa que serviu de estopim para o canibalismo veio do estudante Nando Parrado, que perdeu a mãe e a irmã na queda do avião. Ele conversava com Páez sobre sair novamente em excursão em busca de ajuda. Quando o amigo alegou que ele não iria aguentar a caminhada por falta de alimento, Parrado respondeu: "Então vou cortar a carne de um dos pilotos. Afinal de contas, eles nos meteram nessa confusão". (Parrado foi eleito o maior palestrante do mundo em 2010 pelo World Business Forum.)

O também estudante Roberto Canessa ouviu a conversa e reforçou: "Isso é carne, nada mais. As almas deixaram os corpos e estão no paraíso com Deus". Com um pedaço de vidro, cortou a pele das nádegas de um grupo de mortos, separou 20 tiras em bifes finos e os colocou em silêncio sobre a fuselagem. No dia seguinte, não restava nenhum pedaço. Com o passar dos dias, todos comeram carne humana. Quando conseguiam fazer fogueiras com papelão, descongelavam e tostavam os nacos. Ninguém tocava no assunto. As conversas animadas foram trocadas por descrições dos familiares e choro. E as coisas ficariam ainda piores.

Em 29 de outubro, depois de 13 dias nos Andes, uma nevasca atingiu os escombros da aeronave. A avalanche que se seguiu soterrou 7 homens e a mulher, Liliana. Os demais passaram 3 dias escavando a neve até encontrar uma saída. Emergiram do gelo 16 pessoas, com pontas de dedos e orelhas congeladas. E uma decisão: só comer os mortos mais recentes em último caso. Mesmo tal disposição seria quebrada.

Convencidos de que não havia saída a não ser organizar outra expedição em busca de ajuda, os jovens passaram 3 dias preparando a viagem de Parrado e Canessa. Os dois caminharam por 10 dias, até encontrar o camponês Sergio Catalán. A dupla estava separada de Catalán pelo rio Portillo e o camponês não conseguia entender o que diziam. Fez um gesto de que voltaria na manhã seguinte - e cumpriu o prometido. Levou pães e jogou uma pedra com um papel amarrado. Recebeu-a de volta, com um bilhete: "Sou de um avião que caiu na montanha. Sou uruguaio. Estamos andando há 10 dias. Meu amigo está ferido. No avião há 14 pessoas, algumas delas feridas. Não têm coisa alguma para comer e não podem sair do local. Não podemos andar mais. Onde estamos? Por favor, ajude-nos". Sergio levou os dois para a cidade argentina de Malarqüe.

Por volta de 12h45 de 22 de dezembro de 1972, uma sexta-feira, os sobreviventes ouviram o som de helicópteros. Pelo rádio, já sabiam que a dupla tinha sido bem-sucedida. Ainda assim, só acreditaram que o pesadelo estava para acabar quando viram descer homens vestindo jaquetas vermelhas e carregando macas. O local era de tão difícil acesso que os bombeiros foram deixados ali e prepararam as vítimas para o resgate, que só aconteceu no dia seguinte.
Os sobreviventes foram levados para Santiago, para ser tratados de fraturas, queimaduras, escorbuto e desidratação. E dali para Montevidéu, onde foram recebidos com festa, no dia 28 de dezembro. Num primeiro momento, afirmaram que viveram à base de queijo e chocolate. Mas logo admitiram que só sobreviveram a 72 dias em condições extremas porque romperam um tabu. Revoltadas, muitas pessoas protestaram contra a atitude. A polêmica ainda ronda os sobreviventes. Todos voltaram ao local, hoje conhecido como Vale das Lágrimas. Os destroços congelados da aeronave ainda estão lá, assim como os corpos, identificados e enterrados.

Gustavo Zerbino, o estudante de medicina, saiu em peregrinação pelas famílias dos mortos. Enquanto esteve perdido na neve, reuniu objetos pessoais das vítimas. No começo de 1973, distribuiu fotos, carteiras e relógios que encontrou nos Andes. Todos os sobreviventes eram católicos e muitos compararam o canibalismo ao gesto da comunhão. Outros defendem sua atitude por motivos pragmáticos. "A antropofagia só impressiona a quem não sabe o que são -30 ºC e que não sabe o que é ver um amigo morrendo sem poder fazer nada", diz Roberto Canessa, que hoje é cardiologista.

Dados:
45 pessoas estavam a bordo do avião da Força Aérea Uruguaia

16 é o número de sobreviventes do acidente

72 dias passaram na espera pelo resgate


Saiba mais

Livros

A Sociedade da Neve, Pablo Vierci, Companhia das Letras, 2010

Milagre nos Andes, Nando Parrado, Objetiva, 2006


Site

www.viven.com.uy