27 de out de 2016

GUERRA FRIA


Conflito entre União Soviética e Estados Unidos que se inicia após o término da Segunda Grande Guerra, em 1945 e que se estendeu até 1986, com o início da dissolução da URSS. Foi chamada de Guerra Fria porque as duas potências não entraram em conflito armado direto. Foi também uma intensa disputa econômica, diplomática e ideológica. Essa disputa dividiu o mundo em 2 blocos de influência das superpotências e provocou uma corrida armamentista que se estendeu por 40 anos. Com sistemas econômicos e políticos diferentes, EUA e URSS colocaram o mundo sob a ameaça de uma guerra nuclear, criando armas com potência suficiente para explodir o planeta inteiro. Os EUA assumiram a liderança do chamado mundo capitalista livre, e a URSS, do mundo comunista.
Tanto os EUA quanto a URSS utilizavam estratégias para atrair países para as suas zonas de influência, destacavam as vantagens de cada sistema econômico e salientavam os defeitos do regime oponente, produziam ampla propaganda ideológica, forneciam empréstimos a países com dificuldades econômicas estabelecendo uma dependência. Os EUA criaram o Plano Marshall e a Doutrina Truman que oferecia empréstimos para vários países que quisessem lutar contra o socialismo, esse plano financiou a instalação de diversas ditaduras militares na América Latina.


Corrida Espacial
Durante a Guerra Fria, EUA e URSS travaram uma verdadeira corrida para conquistar tecnologia, em especial aos avanços espaciais. Os soviéticos saíram na frente: em 1957, a URSS lança o foguete Sputnik com um cão dentro, o primeiro ser vivo a ir para o espaço. Mais tarde, o primeiro ser humano na órbita da Terra foi o soviético Yuri Gagarin. Doze anos depois, em 1969, o mundo todo pôde acompanhar pela televisão a chegada do homem à lua, com a missão espacial norte-americana.


Caça às Bruxas, ops... aos comunistas!
Os EUA lideraram uma forte política de combate às ideias socialistas e comunistas. Para isso utilizaram o cinema, a televisão, os jornais, as propagandas e até mesmo as histórias em quadrinhos, divulgou uma campanha valorizando o "american way of life". O Macartismo, criado e comandado pelo senador Joseph McCarthy, perseguiu muitas pessoas nos EUA, vários cidadãos americanos foram presos ou marginalizados por defenderem ideias próximas ao socialismo. Essa ideologia também chegava aos países aliados dos EUA, como uma forma de identificar o socialismo com tudo que havia de ruim no planeta.

Na URSS não foi diferente, uma vez que alguns integrantes do Partido Comunista perseguiam, prendiam e até matavam aqueles que não seguiam as regras estabelecidas pelo governo. Um sistema de investigação e espionagem foi muito usado de ambos os lados. Com a CIA (EUA) e a KGB (Russa). Em 1946, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill proferiu um discurso a expressão "iron curtain", ou "cortina de ferro". O termo foi usado para definir a divisão da Europa em duas partes, Oriental e Ocidental. Enquanto a primeira estava sob controle da URSS, a segunda era zona de influência dos EUA. Assim, a “cortina de ferro” é uma linha imaginária que se localizava na fronteira entre os países capitalistas e socialistas da Europa.


Fim da Guerra Fria e consequências
A falta de democracia, o atraso econômico e a crise nas repúblicas soviéticas acabaram por acelerar a crise do socialismo no final da década de 1980. O fim da Guerra Fria ocorreu por causa de uma série de eventos:
·        Em 1989 caiu o Muro de Berlim e as duas Alemanhas são reunificadas.
·        No começo da década de 1990, o então presidente da União Soviética Gorbachev começou a acelerar o fim do socialismo naquele país e nos aliados: com reformas econômicas, acordos com os EUA e mudanças políticas, o sistema foi se enfraquecendo.








ERA VARGAS 




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19 de set de 2016

O maquiavelismo nas relações de poder entre Getúlio Vargas e Flores da Cunha


O maquiavelismo nas relações de poder entre

Getúlio Vargas e Flores da Cunha







César Fernando Canto da Silva
Simone Drebis Cezimbra 



A conquista e manutenção do poder geralmente constituíram-se no grande desejo de todo governante, independente do regime político instaurado ou do período analisado. Ao longo da história tivemos diversos exemplos de mecanismos utilizados por estes atores sociais que buscaram realizar este desejo. Também temos vários estudos referentes a este tema. A bibliografia clássica apresenta muitos autores que tratam sobre a formação do Estado, e da possível conservação do poder.




Será com Nicolau Maquiavel que inaugura-se um novo método de investigação. Do seu realismo para com a sua pátria, resulta a descoberta de uma nova doutrina, autônoma, com princípios e leis próprias, diferente da moral comum. A partir da “Verità Effettuale della Cosa” - A Verdade Efetiva das Coisas – dá-se inicio a ciência política de conteúdo realista, dinâmico e progressista. A verdade efetiva das coisas, seu legado mais importante, refere-se ao modo de como analisou a sua realidade, de forma objetiva e científica. Maquiavel nasceu na Florença em 1969 e em 1499 foi confirmado segundo Chanceler da República da Florença, onde foi responsável pelas relações estrangeiras da República e onde teve a oportunidade de observar os governantes, suas estratégias, suas artimanhas, suas fraquezas. Em 1512, Maquiavel foi demitido e confinado por um ano em território florentino, durante seu exílio, começou a desenvolver a atividade de escritor político, historiador e literato, agora valeram-lhe as observações que fizera durante sua atividade pública, os conhecimentos que adquirira. Todas as suas experiências serão reexaminadas, meditadas, analisadas e servirão para compor suas obras, com podemos notar em seu livro mais conhecido, O Príncipe, onde reuniu uma série de conselhos sobre a maneira e os meios de se organizar, desenvolver e conservar os Estados, e dentre estes preceitos encontramos a “Fortuna” e a “Virtú”.
Maquiavel concebe a “Fortuna“ através dos ensinamentos da história, como o inesperado, o acaso, algo que escapa à previsão dos homens. O homem pode não conseguir prever os decretos da fortuna, mas pode tirar proveitos das ocasiões, para isso é necessário a posse da “Virtú”, qualidades que permitem ao homem adaptar-se as mudanças da Fortuna. Portanto o Príncipe possuidor dessa virtú terá capacidade de resistir as intempéries da vida, terá possibilidade de modificar sua postura em determinadas situações, manobrar e superar certas adversidades. O governante deverá despir-se de certos preceitos morais, a fim de fazer tudo o que for necessário para alcançar os fins desejados.




Ao longo do trabalho voltaremos a tratar das concepções de Maquiavel, através de análises realizadas no tema principal desse artigo, que trata das relações de poder político entre Getúlio Vargas e José Antônio Flores da Cunha, entre os anos de 1930 até 1937. Iremos fazer esta análise através do Diário de Getúlio Vargas e de bibliografias que estudam o período a ser tratado. As concepções de Maquiavel guiarão nosso trabalho, onde pretendemos analisar a forma de como Getúlio Vargas pretende perpetuar-se no poder através de um Golpe de Estado realizado em 1937, tendo como seu principal opositor seu antigo aliado Flores da Cunha, que lutou ao seu lado durante as campanhas de 1930 e 1932.
Desta relação entre Getúlio Vargas e Flores da Cunha, que sofreu uma total modificação durante o período estudado, tentaremos confirmar se as leis concebidas pelo método de Maquiavel, permanecem atuais, e se o maquiavelismo continua vivo, sendo “recebido por tradição oral, ou por uma espécie de osmose entre políticos” (IN NEDEL, 1996:31).


Revoluções de 1930 e 1932

 

Com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas assume como chefe do Governo Provisório, esse governo de caráter emergencial, tinha como função principal alinhar a economia brasileira as necessidades de reordenação do sistema capitalista. Principalmente após a crise de 1929 que atingiu e decretou a falência do sistema agroexportador e a necessidade de diversificar a economia brasileira.
Será a partir desse contexto que começaremos a analisar o Diário de Getúlio Vargas, suas impressões a respeito de vários momentos e acontecimentos que ocorreram durante seu governo, principalmente aqueles que estão relacionados à figura de Flores da Cunha e aos assuntos do Rio Grande do Sul. Pois é a partir da analise desta relação que pretendemos entender os mecanismos e articulações de Getúlio Vargas para conservar-se no poder.
Assim, no dia 03 de outubro de 1930 data marcada para revolução, já podemos desatacar algumas considerações feitas por Getúlio:

“Pela manhã, recebi o secretário da presidência, com quem despachei a correspondência do dia, e entreguei-lhe, para passar a limpo, o manifesto revolucionário que deverá ser publicado amanhã. Escrevi-o na noite de ontem, lendo-o a Osvaldo Aranha e Flores da Cunha”.

E ainda no mesmo dia:

“Começou o movimento. Um fogo vivo de fuzilaria e metralhadoras, uns vinte minutos de luta, e foi tomado o quartel-general, presos o comandante da Região e seu estado maior. O assalto foi feito por guardas civis e populares capitaneados por Osvaldo Aranha, Flores da Cunha e Adalberto Correia” (VARGAS, 1995:03-05. vol. I)

Alguns autores também destacam a atuação de Flores.

“Em todo o processo de transição da República Velha para a Nova, a atuação de Flores foi incansável. Movimenta-se com a maior rapidez e eficiência – ora nos debates parlamentares, ora nos conchavos políticos, ora ainda nos comícios nas ruas”. (PELLANDA, 1986:31)

A partir dessas considerações percebemos a participação efetiva de José Antônio Flores da Cunha como líder revolucionário. Na verdade, o estado do Rio Grande do Sul teve a participação de vários lideres na Revolução de 1930, destacamos: Joaquim Maurício Cardoso, João Neves da Fontoura, João Batista Luzardo, Raul Pilla, Antônio Augusto Borges de Medeiros e Lindolfo Leopoldo Boekel Collor, entre outros. A diferença destes para Flores da Cunha, é que também participaram como líderes na Revolução de 1932, desta vez contra o governo de Getúlio Vargas, na chamada Revolução Constitucionalista.
Os motivos da dissidência desse grupo foram de ordem política e econômica, pois não aceitavam as medidas centralizadoras do poder executivo pós-30. Assim ocorreu uma cisão dentro da oligarquia gaúcha, ficando uma ala contra o governo, com políticos que faziam parte do Partido Liberal e do Partido Republicano Rio-grandense, que formaram a FUG – Frente Única Rio-grandense; e a outra ala liderada por Flores da Cunha que manteve seu apoio a Vargas. Segundo as considerações de Vargas em seu Diário estes políticos desejavam interferir no ministério de seu governo, utilizando o próprio Flores para fazer as negociações.

“Acentua-se as divergências entre os constitucionalistas e os que desejam não apressar a criação do Congresso antes da realização do programa revolucionário. Flores da Cunha telegrafa a Osvaldo dizendo que Borges de Medeiros nega apoio a esta corrente”. (VARGAS, 1995: 69 vol. I)

“Reunião de Borges e Pilla em Cachoeira, sob os auspícios de João Neves. Telegrama por intermédio do Flores da Cunha. Envia-me uma nota pleiteando o apressamento da constituinte, Lei Eleitora, caso de São Paulo, predomínio militar, isolamento do Rio Grande etc. Contesto dizendo que responderei por carta”. (VARGAS, 1995: 79, vol. I)

Assim seguem diversas passagens em seu Diário referentes a encontros e negociações, tentativas de conciliação entre a FUG, o governo estadual do Rio Grande do Sul e o governo federal.

“Os políticos do Rio Grande também se inquietam, e os libertadores ameaçam romper. O Dr. Borges de Medeiros manda dizer ao Flores que, os libertadores romperem com o governo, os republicanos devem fazer o mesmo, para não quebrar a Frente Única. Chegam-me notícias de ataques pessoais do Pilla diretamente a mim” (VARGAS, 1995: 91, vol. I)

Até que no início de 1932, as lideranças do Rio Grande do Sul, reunidas na FUG, começaram a se afastar do Governo Provisório, defendendo a reconstitucionalização do país.

“Nomeio o general Espírito Santo Cardoso para o cargo de ministro da Guerra. A Frente Única do Rio Grande recusa a proposta enviada por João Neves. Este escreve-me, dando por terminadas as negociações. Os motivos da recusa cifram-se: a Frente Única do Rio Grande quer também o Ministério do Trabalho e não concorda com a nomeação do ministro da Guerra. João Neves publica nota nos jornais dando conhecimento do rompimento das negociações” (VARGAS, 1995: 113 vol. I)

Neste momento de articulações políticas, já podemos notar as considerações ambíguas que Vargas faz a respeito de Flores da Cunha. Ora elogiando sua cooperação para o fortalecimento do governo federal: “Muito influiu na definição dos acontecimentos a atitude de lealdade e decisão de Flores da Cunha” (VARGAS, 1995: 115, vol. I), ora colocando em dúvida sua postura como negociador do governo federal junto as frentes únicas oposicionistas.



“(...) Osvaldo, que estava presente, se oferece para seguir para o Rio Grande, que todos concordam ser a fonte da inquietação do país, pelas tramas e conspirações dos políticos, insuflando os reacionários, e pela ação descontinua de Flores, que se não liberta das influência perniciosa desses políticos, a quem as contínuas concessões nunca satisfazem. Sinto que estou atravessando uma das fase difíceis da administração do país”. (VARGAS, 1995: 90, vol. I, grifo meu)

Em alguns trechos do Diário, Vargas sugeriu a Flores que assumisse o ministério da Justiça, para afasta-lo das negociações, colocando Osvaldo Aranha ou Maurício Cardoso em seu lugar. Mas irrompe o movimento revolucionário em São Paulo. Dia 9 de julho de 1932, tropas da 2ª Região Militar e da Força Publica de São Paulo, comandadas por Isidoro Dias Lopes e Euclides Figueiredo, levantaram-se contra o Governo Provisório, dando início a Revolução Constitucionalista. Vargas descreveu o momento ressaltando a atitude de apoio de Flores da Cunha.

“Morosidade, confusões, atropelos, deficiências de toda ordem, felonias, traições, inércia. Algumas dedicações revolucionárias. Um ato impressionante a solidariedade do Rio Grande, através de Flores da Cunha. A unanimidade do Norte, solidariedade e colaboração dos demais estados”. (VARGAS, 1995:115, vol. I, grifo meu)

 

Período pós 32 no Rio Grande do Sul


“De volta da Revolução Constitucionalista de São Paulo, em 1932, Flores da Cunha teve que enfrentar o grupo político gaúcho dividido: Flores participaram da Revolução ao lado de Getúlio enquanto que uma boa parte dos políticos da Frente Única Rio-grandense, seus velhos companheiros de partido ou mesmo companheiros de Revolução de 30, lutara do lado oposto”(PELLANDA, 1986: 39)

Assim no cenário político do Rio Grande do Sul, após a Revolta de 1932, aumentou-se a divisão política e a oposição à Flores da Cunha, e este passou a enfrentar momentos difíceis do ponto de vista político e administrativo.
A partir da Revolução de 1932 segue no Diário diversas reclamações de Vargas para com as atitudes de Flores, um exemplo disso foi quando ocorre a prisão de Borges de Medeiros. Getúlio ficou descontente com as atitudes de Flores da Cunha, que apelou diversas vezes para que Borges não fosse deportado. Segundo Vargas: ”Isso cria uma situação de desigualdade, porque não se pode abrir exceção para ele”.(VARGAS, 1995: 143, vol. I).
Em 1933 surgiram novas suspeitas de movimentos rebeldes a partir do Sul do país, envolvendo militares e os antigos opositores de Vargas.

“Procurou-me o general Góes Monteiro para mostrar a cópia de uma carta assinada pelos Srs. Neves, Pilla e Mélega, como representantes das frentes únicas, convidando-o para tomar parte num movimento subversivo que tinha por fim derrubar o atual governo e as situações estaduais, a fim de substituí-lo por um governo coletivo até a Constituinte, Góes repeliu o convite”. (VARGAS, 1995: 174vol. I)
“(...) o ministro da Justiça traz-me um telegrama importante. Era de Flores da Cunha, desconfiado com a atividade rebelde dos atuais dirigentes da Frente Única e anunciando a probabilidade de deportação de Maurício Cardoso” (VARGAS, 1995: 175 vol. I)

Mas alguns dos opositores ao governo de Vargas, acreditavam ser melhor aguardar as eleições do que tomar o poder através das armas. O período seguinte foi de negociações para o governo federal, iniciou-se assim, as negociações para formação da Mesa Constituinte e para a próxima eleição. Flores da Cunha encabeçou estas negociações, servindo como negociador do governo em diversos estados, tentando eleger Getúlio Vargas “Um grupo de amigos, dirigidos por Flores, promove a articulação de deputados com o fim de eleger-me presidente agora” (VARGAS, 1995: 248, vol. I). E Vargas acabou mesmo vencendo as eleições.


1934 – Iniciou-se um período de crise


Segundo Maquiavel, os contemplados pela fortuna, devem saber mudar com os novos tempos para manterem sua boa sorte, porque “a causa da boa ou má fortuna dos homens reside em sua capacidade de adequar seu proceder aos tempos”(IN: NEDEL, 1996: 41). Flores da Cunha parece que não percebeu essas mudanças, seu comportamento não se altera e seus ideais democráticos permanecem os mesmos. E se Flores não pretende adequar-se aos novos tempos, indo de encontro a fortuna, também a virtù parece tê-lo abandonado. Já Vargas, iniciava suas negociações para conservar-se no poder, e nesse sentido parece que ambas, fortuna e a virtù estavam a seu lado. Vargas, conforme os conselhos de Maquiavel ao príncipe, soube articular-se as mudanças que estariam por vir e tirou proveito delas para se confirmar no poder. Nem que para isso tivesse que romper com seu maior aliado e unir-se a seus antigos inimigos, a oposição gaúcha.
Assim, os relatos de Vargas, a partir de 1934, começaram a demonstrar seu ressentimento com as atitudes de Flores da Cunha. Podemos observar isso quando se da a visita de Vargas ao Rio Grande do Sul, em novembro de 1934. Ele recebeu políticos da oposição e um diretório da FUG, segundo seu relato nada de importante ficou combinado, mas o interessante é que Vargas não informou Flores a respeito desse encontro.

“(...) Ao recolher-me ao hotel [Vargas, em Porto Alegre], o capitão Amaro comunica-me que uma comissão da Frente Única pede-me audiência – isto é, o diretório da Frente Única. Pela manha do último dia, mandou-me um cartão, com muita insistência para falar-me. O Dr. Argemiro Dornelles(...). Disse-me que vinha da parte de Raul Pilla, que havia mudado de opinião a meu respeito, compreendia que não fizera um juízo exato da situação, estava disposto a uma aproximação com o governo federal, e que isto seria fácil, bastaria substituir a candidatura do Flores à presidência do estado. Respondi-lhe que não era fácil como ele supunha, primeiro porque o Flores havia aceito a sua candidatura, já apresentada pelo partido, e não iria recuar, segundo, porque ele organizara uma agremiação partidária de que era chefe, e esta não se conformaria com a modificação de compromissos recíprocos já assumidos. Seria agradar a uns para desagradar a outros. Além disso, eu não tinha motivos contra o Flores, que era para mim uma garantia de ordem no Rio Grande do Sul. Nossa palestra foi interrompida com a chegada do próprio Flores. Silenciei sobre o ocorrido(...). regressei ao hotel. Atendi a várias visitas individuais e de comissões, bem como o diretório da Frente Única que me trouxe uma representação contra o interventor(...)”(VARGAS, 1995: 344, vol. I)

Notamos que a partir deste acontecimento a relação entre Getúlio Vargas e Flores da Cunha começava a ficar um tanto estremecida. Mas, as rusgas entre a oposição gaúcha e o chefe da Nação continuavam. Como vemos, quando o líder gaúcho, Borges de Medeiros fez seu discurso na Câmara, criticando o governo federal, censurando-o por seus gastos “imoderados”. Vargas em suas observações contestou o discurso, colocando a culpa dos problemas com gastos, exatamente devido à interferência dos lideres da Frente Única do Rio Grande do Sul, e inclusive de Flores da Cunha.

“(...) Para isso seria necessários pelo menos três anos de ditadura, fazendo administração e alheados da clientela política e dos partidos. Infelizmente, não foi possível, e a maior responsável por essa obra de perturbação foi a célebre Frente Única do Rio Grande, dirigida pelos Srs. Borges de Medeiros e Raul Pilla – dois lunáticos e despeitados que sabotaram a obra da ditadura e açularam a Revolução de São Paulo. O apressamento da volta precipitada do país ao regime constitcionalista foi obra da Frente Única do Rio Grande do Sul, com o apoio do Flores e do Osvaldo Aranha(...).”(VARGAS, 1995: 415-16, vol. I)

No ano de 1935 Getúlio Vargas passou uma nova estada no Rio Grande do Sul, que aumentou o distanciamento entre os dois líderes. E segundo estes acontecimentos teremos algumas divergências entre os relatos contidos no Diário e a bibliografia consultada, neste caso a autora Regina Portella Schneider em seu livro, Flores da Cunha o último gaúcho legendário.
Segundo seu Diário, Vargas passou uma estada no Rio Grande do Sul, entre os dias 18 a 30 de setembro de 1935, onde assistiu as Comemorações do 1º Centenário da Revolução Farroupilha. Ainda segundo seu Diário ficou instalado no palácio como hóspede oficial do governo do Estado. Mas segundo a autora Regina Portella Schnaider, Vargas também teria vindo ao estado em “agosto de 1935 e hospedara-se no Grande Hotel” e o pretexto dessa vinda foi o “de visitar seu pai em São Borja” ( SCHNEIDER,1981:293).
Esta autora nos trás um diálogo muito interessante, ocorrido entre Getúlio Vargas e Flores da Cunha, durante esta suposta visita. Então assim segue, segundo a autora:

“Certa tarde, recolhera-se o General Flores da Cunha ao quartinho que habitava no Palácio, quando foi chamado ao telefone pelo SR. Getúlio Vargas, que perguntava se poderia ir até lá para conversarem. Flores assentiu, e, em poucos minutos, estavam frente a frente no quarto pequenino, onde amontoavam papéis por todos os lados, tendo uma cama de solteiro, onde Flores repousava com uma carabina Mauser ao alcance da mão. Após conversar sobre generalidades, Getúlio Vargas falou: ‘Flores, com esta Constituição de 34 e com este Congresso eu não poderei continuar governando’.
Ao que Flores respondeu: ‘Em outubro haverá nova eleição, você terá uma grande maioria e poderá governar francamente, amparado no poder Legislativo ‘ (Diário do Congresso Nacional, 11.04.1953).” ( SCHNEIDER,1981:293).

Ainda segundo a autora:

“Getúlio mostrou-se cético e afirmou que isso não seria possível. Flores da Cunha, devido ao seu temperamento impulsivo, em vez de deixar que Getúlio falasse mais, levantou-se e disse-lhe que só contasse com seu apoio se houvesse uma nova revolução. O diálogo terminou aí” ( SCHNEIDER,1981:293).

O relato da autora é retirado do Diário do Congresso Nacional de 11 de abril de 1953, destacamos que tal visita não esta registrada no Diário de Getúlio Vargas, segundo este, durante o mês de agosto (entre 12 e 13 de agosto) Vargas recebeu a visita de Flores e “conversam sobre assuntos de interesse do Rio Grande (...). Depois declarou-me [Flores] que o Antônio Carlos é seu candidato à futura Presidência da República. Respondi-lhe que ele também tinha a minha simpatia (...)” (VARGAS, 1995: 414, vol. I). A única viagem que Vargas fez em agosto, segundo seu Diário, é ao estado de Minas Gerais no período entre 29 de agosto a 03 de setembro de 1935.
Voltado a visita de Vargas ao Rio Grande do Sul, agora sim, em setembro, a autora Regina Portella Schnaider relata o seguinte: “Retornando em setembro ao Rio Grande, em viagem oficial, para os festejos do Centenário da Revolução Farroupilha, Getúlio Vargas e seus familiares hospedaram-se no palácio do Governo” (SCHNEIDER,1981:294). Coincidindo com os relatos do Diário de Vargas, mas a autora novamente nos trás algumas informações que não constam nos relatos de Vargas.

“Correu então a notícia de que Getúlio Vargas teria apresentado a Flores da Cunha a possibilidade dos que detinham o poder Executivo do País (Presidentes e Governadores) continuarem governando, dispensando o pleito eleitoral que se aproximava, e que Flores teria rebatido rispidamente a idéia, classificando-a de golpe de Estado”. (SCHNEIDER,1981:294).

E ainda segue as impressões da autora a respeito desses acontecimentos.

“O fato é que, após as comemorações do Centenário Farroupilha, as relações entre o presidente da República e o governador do Rio Grande do Sul esfriam, e as hostilidade contra Flores da Cunha tiveram início. ” (SCHNEIDER,1981:294).

Vargas relatou somente que durante sua estada no Sul ocorreu no Rio de Janeiro a escolha do almirante Protógenes para o governo desse estado, e que esta vitória foi contestada pelo general Cristóvão Barcelos, candidato da União Progressista Fluminense, apoiada por Flores da Cunha. Relatou também, que ocorreram violentos incidentes na Assembléia fluminense durante a sessão para a eleição de governador e que ficou desgostoso com a interferência de Flores em assuntos de outros estados. Se antes estas interferências interessavam a Vargas, agora lhe incomodavam, o que confirma o posicionamento da autora Regina Portella, pois a partir de outubro desse mesmo ano, podemos notar através de passagens do Diário que o relacionamento entre Vargas e Flores realmente “esfriou”.

“Os principais motivos de queixa que tenho contra Flores são os seguintes: 1º) o constante trabalho oficial que se faz no Rio Grande, dizendo que o governo federal nada fez por aquele estado; 2º) a mania de estar, lá de Porto Alegre, pretendendo dirigir a política federal, agitando antecipadamente a questão da sucessão presidencial e intervindo na política de outros estados; 3º) quando estive em Porto Alegre, minha correspondência telegráfica com o Rio era controlada pelo Flores, e, nestas condições, quando os avisos iam pela estação do palácio do governo, seu telegrafista solicitava ao diretor regional as cópias dos telegramas que o almirante Protógenes me dirigia; 4º) apoderando-se, por esta maneira, do telegrama do ministro da Justiça passado a mim, divulgou-o para que fosse publicado; 5º) e, por fim, inventou ou admitiu a invencionice de que eu procurava abrir cisão na política do Rio Grande para enfraquece-lo”.(VARGAS, 1995:426, vol. I. “o grifo meu”)


As diferenças entre Vargas e o governador do Rio Grande do Sul realmente começavam a se reforçar. Vargas continuou a suspeitar de Flores, considerando-o um “mentiroso” e “intrigante”. Além dessas diferenças a oposição gaúcha também começou suas “dérmaches”. Conforme relatos do Diário durante o mês de novembro, os membros da oposição ora se aproximavam de Vargas.

“Os oposicionistas continuam procurando aproximar-se do governo para colaborar com este. (...)O mais insistente nessas démarches e quem os emissários inculcam como devendo entender-se comigo é o Lindolfo Collor. Recebi também o major Lousada, que me veio falar da malquerença do Flores contra mim, e suas atividades hostis”.(VARGAS, 1995: 437, vol. I)

Ora se aproximava de Flores da Cunha.

“(...) Procurou-me o major Carneiro de Mendonça, que veio prevenir-me que a oposição se reunia para tomar conhecimento de uma proposta de aliança com o Flores, mediante várias concessões da parte deste, com o objetivo de fazer oposição ao governo federal. O Flores tornou efetivo o rompimento comigo. À noite, já a bancada liberal não veio ao Guanabara, como de praxe”. (VARGAS, 1995:441, vol. I)

Getúlio Vargas utilizou-se da liderança de seu irmão Benjamim Vargas, dentro do Partido Republicano Liberal (fundado por Flores em 1932), para enfraquecer as bases políticas de Flores no Rio Grande do Sul. Mas, conforme a autora Regina Portella, Flores da Cunha também começou seus preparativos, importando clandestinamente armamentos da Tchecoslováquia.
Simultaneamente à pressão militar iniciada por Flores, Vargas procurava minar as bases políticas de sustentação do governo gaúcho, tentando reconquistar o apoio da FUG, através do deputado Maurício Cardoso e usando seu irmão para dividir o partido de Flores – PRL. Assim, em 1936 com o falecimento do deputado liberal Antenor Amorim, ficava vaga a 2ª vice-presidência da Mesa, no dia 15 de outubro realizou-se a eleição na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul para o preenchimento da vaga em aberto. Os candidatos foram A. J. Renner, candidato de Flores e Alexandre Rosa, candidato da oposição. O candidato de Flores foi derrotado.

“É quando um grupo de liberais, que se opunha à liderança partidária do General Flores da Cunha, passa a apoiar a candidatura de Alexandre Rosa, que obteve 22 votos contra 11 para A . J. Renner.” (SCHNEIDER, 1981, 283)

Vargas relatou da seguinte forma o acontecido: “Recebi notícias de que o Flores foi derrotado na Assembléia na escolha do vice-presidente que deveria substituir o falecido Antenor Amorim. O resultado foi 24 contra 9”. (VARGAS, 1995: 552). Em declarações feitas à Folha da Tarde o irmão de Vargas o deputado Benjamim Vargas do PRL, alegou não ter votado no candidato oficial “por não aceitar uma imposição” e acrescentou: “Eu não aceito mais a chefia do General Flores da Cunha. Se quiser pode até registrar isto: o general Flores da Cunha está incurso na Lei de Segurança Nacional, porque reúne corpos provisórios sem a permissão do governo federal” (SCHNEIDER,1981, 286). Confirmando assim, a interferência indireta de Vargas nas eleições da Assembléia do Rio Grande do Sul.
Flores desconfiado dessas articulações entre Getúlio Vargas e a oposição gaúcha, iniciou a mobilização de seus Corpos Provisórios (tropas irregulares estaduais compostas de civis recrutados) e intensificou a compra de armamentos para os seus efetivos. Vargas respondeu à mobilização de Flores enviando grande quantidade de material bélico para as guarnições do Exército estacionadas no Sul, além da transferência do general Góes Monteiro para uma revisão das tropas nesta região
A autora Regina Schneider relata a necessidade que o governo federal tem em diminuir o poder de ação de Flores no Rio Grande do Sul.

“O Rio Grande do Sul, com suas poderosas forças da Brigada Militar e dos numerosos Corpos provisório, era considerado, nessa época, como o maior obstáculo ao golpe. Por esse motivo, foi elaborado um plano para eliminar as forças provisórias e reduzir a capacidade de resistência do governo gaúcho”.(SCHNEIDER, 1981: 296)

Neste período Vargas teve seus poderes excepcionais aumentados, em decorrência de um levante comunista ocorrido em dezembro de 1935. Foi proclamado o Estado de Guerra, e o general Góes Monteiro foi nomeado comandante do 1º Grupo de Regiões com a tarefa de inspecionar as Regiões Militares do Sul, assim Vargas impulsionou o general Góes Monteiro contra Flores.

“Orientava este Plano o General Góes Monteiro, chefe do Estrado Maior do Exército, que no início de 1937 estivera em Porto Alegre, hospedar-se no Grande Hotel, a fim de articular um movimento armado para derrubar Flores da Cunha do poder.” (SCHNEIDER, 1981: 296)



Lembramos que este mesmo general alguns anos atrás estava envolvido na articulação de um golpe militar contra o governo de Getúlio Vargas, e que naquele momento, Flores deu total apoio a Vargas, inclusive, movimentando os mesmos Corpos Provisórios que agora causavam tanto incomodo aos planos de Getúlio Vargas. Os caminhos da história são estranhos.
Em janeiro de 1937, Getúlio Vargas recebeu a visita dos generais Góes Monteiro, Fontoura e de seu antigo opositor, o gaúcho João Neves, após esta reunião Vargas decidiu aparelhar com rapidez seu Exército. Em abril do mesmo ano Vargas ordenou que se desse fim ao movimento militar no Sul. Assim, nos dias 26 e 27 de abril de 1937, decorreram os seguintes acontecimentos:

“O ministro da Justiça levou o decreto passando ao comandante da 3º Região a execução do estado de guerra no RS., para ser comunicado assim que fossem atendidas pelo governador as providências pedidas por aquele comandante”.
“Este dia foi de expectativa sobre a atitude do governador do Rio Grande, notificado pelo ministro da Justiça que lhe fora retirada a execução do estado de guerra. Respondeu protestando, mas não se levantou em armas, como ameaçara. VARGAS, 1995:38, vol. II)

Em maio de 1937, ainda devido aos rumores de preparativos bélicos do Flores, o ministro da Guerra incumbiu o general Góes Monteiro de ir ao Sul para sondar os comandos da Regiões Militares e neutralizar as manifestações agressivas do Rio Grande do Sul. Estas articulações tornaram-se conhecidas como as “manobras de maio”. Neste mesmo mês, Vargas nomeou o General Daltro Filho para o comando da 3ª Região em Porto Alegre, no lugar do General Esteves, que estava sendo acusado de fraqueza, falta de ação e condescendência demasiada para com Flores. Mas parece que Getúlio Vargas não teve a aprovação de todos os membros do Exército e no final de maio de 1937 surgiram boatos na imprensa e no rádio de uma reunião entre generais, que resultou em um documento que foi ser encaminhado ao ministro da Guerra contendo críticas à conduta do Exército e condenando as manobras intervencionistas no Sul. Vargas relatou a situação:

“Após as audiências e despachos normais, procurou-me o ministro da Guerra para informar-me que fora procurado por alguns generais pacificadores, alarmados com a situação criada no Rio Grande e querendo pacificar.
Pobre gente! Parece mesmo quer o Flores é mais general do que eles. Seria preferível que, em vez de espada, lhes dessem uma almofada para bordar”. (VARGAS, 1995:50, vol. II)


Vargas aproveitou-se de seus poderes para substituir os militares de altos postos no Rio Grande do Sul, por militares fiéis ao seu projeto, além de liberar um crédito extraordinário de 10 mil contos ao ministério da Guerra, para atender a possíveis movimentos de tropas no Sul (VARGAS, 1995: 558). Dificultando ainda mais a situação de Flores no Rio Grande do Sul.
Assim em 17 de outubro de 1937, Flores da Cunha renunciou e exilou-se no Uruguai. Vargas descreveu este acontecimento da seguinte forma:

“Pela manhã o general Daltro comunica ao ministro da Guerra que o arcebispo D. João Becker o informara que o Flores renunciaria na próxima segunda, desde que eu garantisse a manutenção da ordem. Respondi pelo mesmo conduto, assegurando essa garantia. Logo depois nova informação do general Daltro de que o Flores entregara a Brigada Militar requisitada pelo governo federal. Como antes ele afirma que renunciaria para não assinar essa entrega, a aquiescência quanto a esta parte fez supor que não mais renunciaria. Vieram depois novas informações de que efetivaria a renúncia, assumiria o Darci Azambuja, e a Assembléia, em seguida, elegeria o Maciel Júnior. Pediam que se fizesse a intervenção imediata. Respondi prometendo”. (VARGAS, 1995:75, vol. II)

E ainda em 18 de outubro de 1937:

“A renúncia do Flores teve uma larga repercussão no espírito público. Ainda é cedo para calcular o mal ou bem desse acontecimento. Estou convencido de que foi um bem. Os acontecimentos estão ocorrendo, e é cedo ainda para verificar suas conseqüências: a resistência caudilhesca, desagregadora, regionalista contra a tendência centralizadora e coercitiva do poder central. Se esse regionalismo caudilhesco pode resistir tanto tempo, é que ele se apoiava nos próprios elementos militares desviados de sua missão”. (VARGAS, 1995:76, vol. II)

Em 19 de outubro de 1937, foi decretada a intervenção no Rio Grande e nomeado como interventor no Rio Grande do Sul, o general Daltro Filho, comandante da 3ª Região Militar, conforme sugestão de Benjamim, para desgosto de boa parte da oposição que esperava por uma nova eleição no estado.

“João Neves pede adiamento da intervenção para abrir discussão para escolha de um candidato. Benjamim insiste pela intervenção a fim de evitar choque das competições pessoais, solicitando para interventor o próprio comandante da Região. Newton Cavalcanti traz vários papéis contra a Bahia, Pernambuco aos quais combinados com o Rio Grande do Sul tentam um movimento contra o governo federal”. (VARGAS, 1995:76, vol. II)


Segundo Vargas o caso gaúcho fortaleceu o governo, o número de deputados que compareceu a audiência com o Presidente nas sextas foi superior ao normal. Agora Vargas tinha fora de seu caminho um dos maiores opositores ao seu plano de perpetuar-se no poder através de um golpe. Pois a intenção de Getúlio Vargas era permanecer no poder e, se não fosse possível através das eleições seria através de um Golpe de Estado. Para melhor visualizarmos estes apontamentos, voltaremos no tempo, tendo agora como fundo o cenário Nacional e a questão da sucessão presidencial. Voltamos, assim para o período pós 1932.


Os períodos de sucessão presidencial de 1934 e 1938 - que não se concretizou


Referente a questão sucessória, gostaríamos de destacar que em seus discursos, Vargas geralmente nega a sua suposta pretensão de permanecer no governo, alegando sempre que pretende retirar-se da vida pública.
Já em seu discurso de posse, em 1930 Vargas deixou claro: “assumo, provisoriamente, o Governo da República, como delegado da Revolução (...)”(CARONE, 1982: 284), demonstrando que pretendia deixar o governo após o estabelecimento de um novo regime, constituído através das urnas.

“Recebo telegrama de Osvaldo, transmitindo-me a moção de solidariedade do congresso rio-grandense para manter a ordem e fazer as eleições a 3 de maio. Respondo agradecendo, e que só espero realizar esses objetivos para retirar-me à vida privada, no seio dos meus coestaduanos. Os jornais, principalmente os de oposição, têm dado grande destaque ao meu telegrama a Osvaldo Aranha dizendo que, após realizar as eleições, me retiraria à vida privada”. (VARGAS, 1995: 153, vol. I)

Aproveitamos para analisar esta atitude de Vargas a partir de mais uma lição deixada por Maquiavel aos governantes, assim ele coloca: “o príncipe não pode, nem deve guardar a palavra dada, quando isto se tornar prejudicial ou quando deixem de existir as razões que o haviam levado a prometer ” (MAQUIAVEL, 1979: 83). Maquiavel alega que o governante deve possuir a astucia da raposa: “quem melhor se sai é quem sabe valer-se das qualidades da raposa. Mas é necessário saber disfarçar bem essa natureza e ser simulador e dissimulador (...)” (MAQUIAVEL, 1979: 83).


Será que nas diversas passagens do Diário, onde alega que pretende deixar a vida pública, Vargas estava dissimulando? O que sabemos é que permaneceu no poder por um bom tempo. Mas voltemos a analisar como se deu o rompimento entre Getúlio Vargas e Flores da Cunha, agora, através dos processos eleitorais que estavam por vir.



A sucessão presidencial de 1934


Entre 15 e 19 de novembro de 1932, realizou-se em Porto Alegre o congresso de fundação do Partido Republicano Liberal – PRL, constituído em grande parte por dissidentes da FUG e liderado pelo interventor Flores da Cunha, e que contava com o apoio de Vargas. Os trabalhos foram presididos por Osvaldo Aranha, e já neste momento, tratavam-se das primeiras prerrogativas referente a eleição marcada para 03 de maio de 1933, mas que iria se efetivar, somente em 1934.
Neste período podemos notar, a partir dos escritos de Vargas, a intensa cooperação de Flores a fim de que Vargas fosse eleito Presidente da República. Em diversas passagens do Diário vemos a atitude determinada de Flores em negociações com vários políticos de diversos estados, para que as eleições ocorressem antes do prazo previsto, pois haviam fortes indícios de uma tentativa de golpe militar articulado pelo general Góes Monteiro e pelo general Daltro Filho que afirmavam preferir a “República Ditatorial” (CARONE, 1982: 323).

“O Flores dirigiu-se aos interventores de Minas, Bahia e Pernambuco, provocando uma reafirmação de solidariedade no pacto firmado. Comunicou-me depois que ia fazer declarações, informando-me que sustentariam minha candidatura mesmo pelas armas. Respondi-lhe instando que não o fizesse, pois a situação esta melhorando”.(VARGAS, 1995: 287, vol. I)
Continuam a fervilhar os boatos de preparativos para um golpe militar. O incidente Góes Flores está sendo explorado para despertar o espírito de classe.(VARGAS, 1995: 290, vol. I)

Flores da Cunha inclusive chegou a mobilizar suas tropas, na intenção de que se confirmassem os trabalhos da Mesa Constituinte. A coexistência desses Corpos Provisórios e o Exército constituiu-se num foco permanente de tensão no período posterior a 1930.



“Pela manha, procura-me os ministros da marinha, Viação e Fazenda, a comunicar-me o grau de exaltação do general Góes contra Flores da Cunha, pela mobilização de Provisórios que este fizera no Rio Grande, que era um acinte ao Exército, uma provocação, uma desconfiança da sua lealdade, que havia determinado a concentração das forças Do Exército na 3ª Região. Lembrei que, se o general Góes havia feito tudo isso sem meu conhecimento, seria o caso de substitui-lo no cargo de ministro” (VARGAS, 1995: 289, vol. I)

Desse momento resultou uma discórdia entre Flores da Cunha e o general Góes Monteiro. Flores da Cunha acusava Góes Monteiro de tentar articular um Golpe militar e o general Góes Monteiro reclamava da interferência de Flores no comando do Exército. Vargas se utilizará desta discórdia no futuro.
Mas retomemos a sucessão presidencial: em 17 de julho de 1934 ocorre o pleito que dá a vitória a Getúlio Vargas. Ele relatou da seguinte forma os acontecimentos:

“Realizou-se a eleição para presidente da Republica. Acompanhei pelo rádio, como no dia anterior, os trabalhos da Constituinte. A oposição escolheu Borges de Medeiros, que obteve 59 votos, e o meu nome, 175, havendo 14 votos em outros candidatos”. (VARGAS, 1995:307, vol. I)

A sucessão presidencial de 1934, e o inicio da crise entre Vagas e Flores


No final do ano de 1934 ocorreram muitas greves e assim foi instalado o Conselho Superior de Segurança Nacional, Flores acompanhou de perto as atividades de Vargas e o auxiliou na solução destas, apesar de sua vitória nas eleições de 1934 para o governo do estado, Flores não conseguiu a maioria na Assembléia e assim foi obrigado a fazer acordos com a Frente Única. Também neste período retornaram do exílio figuras importantes da oposição gaúcha, que participaram da revolução de 1932, e que começam a agitar a vida política Rio-Grandense e nacional, interferindo tanto no governo de Flores como no de Getúlio.
Os problemas de questão militar, também continuaram durante o ano de 1935. Existia um clima de conspiração militar devido a solicitações de reajustes salariais não concedidos pelo governo. Assim Vargas relatou os acontecimentos:

“Recebi longo cifrado de Flores, denunciando uma conspiração militarista para instituir uma ditadura e acusando o almirante Protógenes, os generais Valdomiro, Deschamps, Guedes da Fontoura, Daltro, Esteves e outros como não sendo fiéis ao governo. Sábado conversei com o ministro da Marinha, e Domingo à noite, com Raul Fernandes. Estou examinando a possibilidade da candidatura Protógenes ao futuro governo do Estado do Rio”. (VARGAS, 1995:363, vol. I)

Destacamos a partir das considerações de Getúlio, a atuação de Flores, sempre apoiando e defendendo o chefe da nação. Mas segundo seus escritos, Vargas passou a receber e negociar com a oposição gaúcha, que sempre havia sido tão condenada. Por intermédio do general Góes Monteiro ministro da Guerra, Vargas recebeu antigos inimigos.

“À noite, recebi o Lindolfo Collor, cuja aproximação se verificou por intermédio e iniciativa do General Góes. (...) entramos no assunto – a pacificação do Rio Grande. Explicou-me as démarches havidas, segundo ele, por iniciativa e insistência do Flores, e a recusa que havia à aceitação da candidatura do Flores, que importava uma simples adesão. Observei-lhe que as aspirações ideológicas da Frente Única que já não estavam realizadas estavam em vias de realização. Nessas condições, fazer questão do nome do Flores seria conduzir um assunto que poderia trazer tantos benefícios ao país a uma questão pessoal. Falou-me, então, na hipótese de a pacificação estender-se a todo o país em torno do meu governo, do qual eles fariam parte por uma reorganização do Ministério, para realizar um rigoroso programa financeiro”. (VARGAS, 1995: 377, vol. I)

Os problemas referentes ao reajustamento salariais das Forças Armadas continuam, e o general Góes Monteiro, aproveitou para fazer declarações na imprensa, instigando os militares contra o governo. Diversos interventores, inclusive Flores da Cunha, alertaram Vargas do perigo de uma trama revolucionária contra seu governo. Flores passou a instigar seus oficiais de Cachoeira o que perturbava ainda mais o ministro da Guerra que insistia em ser exonerado, mas Vargas negou seu pedido e enviou telegramas a Flores pedindo que este acalma-se seus amigos. Estas atitudes de Vargas são interessantes e demostram grande qualidade de articulação política.

“O ministro da Guerra voltou a falar da sua exoneração, apresentando-a sob um aspecto político de trabalho do Flores contra todos os que supunha pudessem criar obstáculos aos seus propósitos de ser o futuro presidente da República ou de desempenhar o papel de Pinheiro Machado, Contou-me a propósito vários episódios e palestras com o Flores e o Osvaldo”. (VARGAS, 1995:285, vol. I)

Em uma de suas audiências com o presidente Vargas, o general Góes Monteiro, fez denúncias sobre as atitudes de Flores da Cunha, quando deu-se a visita de Vargas ao Rio Grande do Sul, em 1934. Conforme seu relato Vargas desconhecia tais acusações e ficou “surpreso”.


“Recebi o Góes. Estava calmo, parecendo-me até um pouco deprimido. Queixou-se do Flores, contando-me que, quando visitei o Rio Grande, Flores lhe telegrafará dizendo que eu pretendia afastá-lo do governo, que estava recebendo os oposicionistas e o desprestigiando, e que ele estava disposto a resistir até pelas armas e pedia a ele, Góes, que me telegrafasse intercedendo pela sua permanência. Como durante minha visita ao Rio Grande só procurei prestigiar a autoridade do Flores, recusando aceitar promessas de apoio que trouxessem como condição seu afastamento, fiquei muito surpreso com esta informação”.(VARGAS, 1995:386, vol. I)

Vargas devido a pressão e as várias denúncias, trocou seu ministro da Guerra, que durante seu discurso de despedida queixou-se da intromissão de políticos no Exército, principalmente do general Flores da Cunha. Mas, como vimos, o general Góes nunca se afastou do governo de Vargas.
Durante este período, Vargas passou a receber a bancada gaúcha, e também uma comitiva do Partido Libertador. Mas seu governo continua a ser alvo de muitas criticas e inclusive Flores aproveitou para fazer suas reclamações.

“A oposição Rio-grandense – João Neves e Batista Luzardo – abriu as baterias contra mim. O primeiro é um pequeno frasquinho de veneno manejando brilhante capacidade oratória; o segundo, com a má-fé inconsciente dos espíritos obtusos, mal se equilibra entre as contradições da sua palavra e as dos seus atos. Flores vai ao Catete , reclama que seus pedidos sobre o Rio Grande não tem sido atendidos”.(VARGAS, 1995:397, vol. I)

Além das denúncias feitas pelo general Góes, contra a figura de Flores da Cunha, como a que vimos acima, Vargas também recebeu informações negativas a respeito do interventor do Rio Grande do Sul, através de outras pessoas, e passou assim, a desconfiar das intromissões de Flores em seu governo

“(...). recebi o Chateaubriand, que me narrou várias cisas interessantes, entre elas, as manobras da oposição junto ao Flores para separá-lo de mim, para intriga-lo comigo, para agitar candidaturas presidenciais, para fazer conciliações, governo de gabinete, etc., e como o Flores, até certo ponto, favoreceu estas pretensões”. (VARGAS, 1995: 423, vol. I)

Em dezembro de 1935 ocorreu a Conspiração Comunista, e assim a sucessão presidencial ficou por algum tempo de lado nas preocupações de políticos e militares. A partir desse acontecimento foi decretado o Estado de Sítio no país. Aproveitamos este último acontecimento para fazermos uma nova análise a partir dos conselhos proferidos por Maquiavel a respeito do uso da violência pelo governante.



Nosso escritor florentino chega a pregar o uso da violência, de acordo com as circunstâncias, ou conforme a necessidade, para o êxito político. O ideal, segundo Maquiavel, é de que o governante possa agir em todo o tempo sem artimanha e violência, isto, porém não é sempre possível. Maquiavel acrescenta, que quando for necessário o governante deve recorrer à astúcia ou mesmo à violência. ele deixa a seguinte lição ao governante que deseja manter-se no poder: “este não deve se preocupar com a fama de ser cruel” (MAQUIAVEL, 1979: 78). Assim, retomando a descrição do período (dezembro de 1935). Seguiu-se muita repressão e excessos arbitrários, principalmente com o reforço da Lei de Segurança Nacional. Ocorreram muitas prisões, perseguições a sindicalistas, comunistas, socialistas, operários, o número de mortos e desaparecidos aumentavam. (CARONE, 1982: 343). Destacamos que estes relatos não aparecem de forma clara nos escritos de Vargas.
Neste acontecimento podemos perceber as divergências e o distanciamento político entre Flores da Cunha e Getúlio Vargas, a bancada liberal do Rio Grande, por determinação do Flores votou contra a instituição do Estado de Guerra, engrossando a oposição. Vargas, que estava sempre muito bem informado dos movimentos de vindos do Sul, através de seu irmão Benjamim Vargas, concluía que “o Flores está agindo de má-fé, cavilosamente, procurando organizar elemento de resistência para fazer-me oposição”. Assim a todo momento aparecem comentários de Vargas alertando para articulações feitas por Flores, que segundo sua analise iam de encontro a seu governo ou que, eram ataques a sua pessoa.

“Continuo a saber de atitudes estranhas do Flores, no Rio Grande, tomadas contra mim. (...). Como sempre era do Rio Grande que me vinham os incômodos, as traições, as ameaças, produtos da ambição de mando e do desvario. No Governo Provisório foi a Frente Única, agora era o Flores. (VARGAS, 1995: 436, vol. I)


Em junho de 1936, acentuam-se a aproximação entre Getúlio e seus antigos opositores gaúchos. Assim aparecem no Diário as primeiras conversações entre o chefe da Nação, Maurício Cardoso, João Neves da Fontoura e Batista Luzardo Essa negociação ficou conhecida como a “paz em separado”. Vargas relatou assim tais acontecimentos:


“Recebo a visita de Maurício e do Paim que examinam a possibilidade de um acordo com as aposições, o primeiro contra Flores, o segundo mais tolerante, respondi-lhes que deveriam entrar em entendimento com os governos estaduais que me apoiavam, recomendei-lhes que mexessem a panelinha, mas que não fizessem muita fumação”. (VARGAS, 1995:493, vol. I)

“(...) fui a um churrasco e encontrei Maurício Cardos e o Paim (...) disseram-me que o João Neves estava trocando idéias com os outros elementos da oposição e me traria uma proposta escrita para a pacificação . Deram a entender que o Neves criaria algumas dificuldades, e que a atitude deles aqui era a seguinte: ou fariam aliança comigo, ou com o Flores. Ele, Maurício não acompanharia na marcha para Flores. Isso foi essencial. Fiquei aguardando a proposta”(VARGAS, 1995:494, vol. I)

A proposta feita inicialmente a Vargas estava ancorada na troca de três de seus ministros. Vargas não aprovava tal ideia, mas para sua surpresa a proposta que lhe foi apresentada favorecia-lhe em muito, acenava inclusive, com a prorrogação de seu mandato e uma trégua política até janeiro de 1937, adiando a discussão sobre a sucessão presidencial. A “fortuna” sorri para Vargas e virtù continua a seu lado.

“À noite, procura-me o desembargador Armando de Alencar, em nome do Maurício e de outros elementos da Frente Única Rio-Grandense, para um encontro, domingo, em casa dele, com os referidos próceres, a fim de que estes concretizem a proposta de acordo. Diz-me que um dos pontos desse acordo consistia na aceitação da fórmula Pilla, aumento do período presidencial para seis anos, com prorrogação do meu mandato, por mais dois. Interessante, curioso mesmo, o Flores dizendo que eu pretendo eternizar-me no governo, e os oposicionistas querendo tomar a iniciativa da prorrogação do meu mandato”. (VARGAS, 1995: 496, vol. I, grifo meu)

Maquiavel, nos dá a ideia de que a virtù representa um conjunto de qualidades que permitem a um príncipe aliar-se à fortuna e conseguir glória e fama. Assim o governante deve ter a flexibilidade moral, ou seja, a disposição de fazer tudo o que for necessário para alcançar seus desejos, independente de serem ações más ou boas. Maquiavel coloca que o governante precisa “saber entrar no mal, se necessário” (MAQUIAVEL, 1979: 84) A virtù além dessa vontade forte, também requer outras qualidades como a inteligência para calcular os recursos a empenhar na ação, vivo sentido da realidade, rápida compreensão das circunstâncias e, quando necessário a capacidade de simular e dissimular, deixar de lado os escrúpulos da moralidade a fim de realizar seus desejos. O governante deve ter a capacidade de resistir ao que é indeterminado na vida, evidenciando sua autonomia e a sua vontade forte. Podemos analisar dessa forma a aproximação de Vargas com elementos da oposição gaúcha, que em 1932 lutaram contra seu governo. Vargas deixou de lado as antigas rusgas que tinha com seus inimigos, para neste momento confirmar sua liderança no governo.




Vargas aproveitou e também conversou com suas bases no governo paulista e o governador se mostrou partidário da ideia um alargamento do período presidencial para execução de um programa prévio. Segundo comentários de Vargas, a partir dessas negociações, Flores começou a ataca-lo pela imprensa e através de amigos em comum.

“(...) O Flores espalha que eu desejo permanecer no poder [além] dos quatro anos da eleição, mas que ele se oporá. Até agora, porém, eu ignorava o motivo desses zelos democráticos do general, porque sempre esteve nos meus propósitos, findo o quatriênio, transmitir pacificamente o governo ao meu substituto e ir descansar”. (VARGAS, 1995:487, vol. I, grifo meu)

“O ministro da Aviação deu-me conhecimento de uma nota publicada em Porto Alegre pelo jornal de Flores e aqui suspensa a reprodução nos jornais pela censura. Nessa nota ele revela a ameaça de um perigo contra as instituições constitucionais e a necessidade de reforçar o poder civil, atacando a mim por condescender com essa ameaça pelo desejo de prolongar-me no poder. Em resumo, o Flores, paladino das liberdades públicas e da democracia, contra a ameaça de um golpe de Estado, encarna o poder civil. Belo programa de candidato à presidência da República! (VARGAS, 1995:496, vol. I)

Vargas continuava a alegar que pretendia deixar o governo após a realização das eleições, queixava-se dos ataques feitos por Flores. Novamente Vargas veste a pele da raposa simulando que não pretende continuar na vida pública. Mas, não podemos deixar de observar que neste momento, Vargas já ficava entusiasmado com a idéia de ter seu mandato prorrogado, conforme seu próprio relato.
Já em meados de 1936, iniciavam-se as articulações para escolha de candidatos à eleição presidencial, marcada para 03 de janeiro de 1938. Surgindo vários nomes inclusive o de Flores: “(...) o Macedo, que me informa da conversa que teve com o Machado Coelho, querendo que eu apresente a candidatura do Flores à Presidência da República. O homem é mesmo candidato, e afinal descobre-se”. (VARGAS, 1995:530, vol. I)
Segundo Edegar Carone, Getúlio Vargas pretendia controlar o processo a fim de “sua permanência no poder ou a escolha de alguém que seguisse a sua linha de ação” (CARONE, 1982: 355). Flores da Cunha entrou na disputa apoiando candidaturas, a principio pretendia lançar o nome de Antônio Carlos, após sugere o nome de Raul Pilla. Mas acabaria apoiando a candidatura de Armando Sales. Vargas analisou a atitude de Flores da seguinte maneira:



“O Flores depois de tentar as candidaturas de Armando Sales, Medeiros Neto, José Américo e outras, e nada conseguir, aliou-se aos adversários mais odientos do governo – perrepistas, Bernardes, Mangabeira etc. – e agora tive conhecimento de que escrevera ao Osvaldo convidando-o a formar contra mim. Esta atitude irrequieta e de constante perturbação leva-me a tomar medidas preventivas contra ele”. (VARGAS, 1995:541, vol. I)

No final de 1936 Vargas recebeu o Governador de São Paulo, Armando Sales, que desejava se retirar-se do governo para concorrer as eleições, Vargas o lembra da promessa que haviam feito de não anteciparem as discussões referente a eleição presidencial e tenta dissuadi-lo da ideia de largar o governo. Mas como a data limite de desincompatibilização era 02 de janeiro de 1937, sua tentativa não deu resultado e o governador de São Paulo, decidiu renunciar e lançar sua candidatura. Armando Sales terá o apoio de Flores e de parte das oposições. Segundo Vargas os perrepistas discordantes da candidatura de Armando procuravam aproximar-se do governo federal através da Frente Única Rio-Grandense.




A questão sucessória iria causar alterações inclusive no ministério de Vargas. O ministro do Exterior pediu demissão para tornar-se candidato contra Armando Sales e o ministro da Justiça, Vicente Rao, também pediu demissão em solidariedade a candidatura de Armando Sales Neste período ocorreu a volta de Osvaldo Aranha, embaixador em Washington, e que segundo Vargas também teve pretensões de candidatar-se a presidência com o apoio de Flores: “conversa mole com o Osvaldo sobre o caso do Rio Grande. Ele parece um pouco inclinado a amparar Flores. Sonha, talvez com a possibilidade de ser candidato etc.” (VARGAS, 1995:11vol. II)
Osvaldo Aranha mostrou-se interessado em pacificar Flores com Getúlio. Assim, viajou para o Rio Grande do Sul com o objetivo de pacificar as elites políticas gaúchas e construir um acordo entre Rio Grande do Sul e São Paulo, através de Flores da Cunha e do PRP, para em seguida aproximar os dois estados ao de Minas Gerais, formando assim um bloco situacionista que decidiria a sucessão de Vargas.

“À noite, recebi o Osvaldo, sempre com a preocupação de resolver o caso do Flores, de acomodá-lo comigo, de encontrar uma solução etc. Respondi-lhe que a solução era simples: o Flores que ficasse quieto, não me importunasse, que eu não o hostilizaria. Quando se tratasse da escolha de um candidato, da articulação em torno de um nome para me suceder, ele seria ouvido. Não achava suficiente: queria que eu o chamasse e Flores, que me compusesse com ele, que abandonasse os liberais etc.” (VARGAS, 1995:27, vol. II) –

Mas Vargas acreditava que Osvaldo estava a serviço de Flores com esperança de ser candidato. Segundo Vargas, sua candidatura “é muito simpática. Não é, porém, fácil”. (VARGAS, 1995:18, vol. II). Mas na verdade o percebemos é que a partir daí Vargas tentou afastar Osvaldo Aranha da questão sucessória, como tentará com Armando Sales, enviando-o para Washington. Assim descreve Vargas: “Osvaldo pede-me que fizesse a coordenação de seu nome para presidente da República, como candidato à sucessão. Disse-lhe que poderia regressar aos Estados Unidos porque, se ele tivesse de ser candidato, seu afastamento não prejudicaria” (VARGAS, 1995:20, vol. II). Diversas vezes Vargas alertou Osvaldo das dificuldades de sua candidatura e da conveniência de seu regresso a Washington. Logo em seguida Osvaldo parte.
Em 1937 as articulações, referente a campanha eleitoral, começam a se definir. Flores da Cunha aconselhava a candidatura de Armando Sales, e durante a convenção do partido Liberal Flores reafirmou seu apoio a esta candidatura. O governador de Minas Gerais foi escolhido para dar início a coordenação política para sucessão presidencial em nome da situação que lançara o nome de José Américo com apoio da maioria das situações estaduais.
Novamente Vargas voltaria a deixar claro sua pretensão de retirar-se da vida pública após as eleições. Conforme seu discurso, de 07 de setembro de 1937, Vargas afirmava que este seria seu último discurso como chefe da nação, devido as eleições de 03 de maio para escolha de seu sucessor. Vargas também anunciou a aceitação da candidatura de José Américo, como candidato pela situação. Mas, ao que parece esta escolha não foi feliz. Segundo os relatos de Vargas o candidato a presidência, pela situação, começava a perder apoio devido a seus discursos: “bestialógicos”. Alguns apoiadores do candidato José Américo, tomados de apreensões por suas palavras e atitudes, desejam abandona-lo por outro nome.




Mas um novo acontecimento ocorrido a 30 de setembro de 1937, iria alterar todas as expectativas sucessórias, a descoberta de um documento onde planejava-se a tentativa de levante comunista, tratava-se do Plano Cohen, que posteriormente veio a saber-se que era um documento falso, forjado pelos próprios militares a fim de que fosse solicitado a instalação do Estado de Guerra, ampliando ainda mais os poderes do executivo para os futuros acontecimentos.
Assim ainda neste mês foram tomadas medidas militares nos estados São Paulo. Bahia e Pernambuco, por não estarem de acordo com as reformas, que segundo Vargas, tratava-se de uma reforma na constituição. Na verdade, o teor das reformas é outro, são as primeiras negociações a respeito do Golpe de Estado.


A partir desses acontecimentos acelerou-se os planos para o golpe de Estado. Em várias passagens do Diário podemos notar a pretensão de Vargas em permanecer no poder, através de suas articulações e até mesmo de suas colocações, como vimos anteriormente. Mas a partir de 1937 os planos se definiram, e já em abril de 1937 temos o seguinte relato: “(..) recebi o Sr. Francisco Campos a quem dei minha opinião sobre um projeto de Constituição que ele me apresentara”. (VARGAS, 1995:38, vol. II). Assim o ministro Francisco Campos já desenvolvia estudos que resultariam no texto final da Constituição de 1937.
Em 27 de outubro de 1937 temos destacado no Diário a missão de Negrão de Lima, incumbido pelo governador de Minas Gerais de sondar sigilosamente os governadores do Norte e Nordeste, à exceção de Pernambuco e Bahia, sobre seu apoio às mudanças institucionais projetadas por Vargas através de um golpe de Estado. Devemos lembrar que nesta data Flores da Cunha já havia se retirado do cenário político, encontrava-se exilado no Uruguai.
Ainda segundo seus relatos, Vargas passou por momentos de apreensão. Em 05 de novembro de 1937, ocorreu o vazamento das notícias que denunciavam a articulação do golpe, assim esta descrito:

“O acontecimento sensacional do dia foi a nota do Correio da Manhã revelando a missão do deputado Negrão de Lima ao Norte e fazendo comentários e intrigas com as Forças Armadas. Como a censura deixara publicar? Quem [fora] o responsável pela nota e pela publicação? Tomavam-se providências a respeito sem resultado! “ (VARGAS, 1995:81, vol. II)

O vazamento da notícia obrigou Vargas a armar um esquema para desmentir a denúncia de golpe, articulando-se com alguns políticos para que fosse divulgada extraoficialmente a informação de que a consulta aos governadores destinava-se à busca de uma solução conciliatória para o quadro sucessório dentro das normas legais. Mas o que vimos é que no mesmo dia, o controle da censura à imprensa, às agencias telegráficas e rádios foram transferidos do Ministério da Justiça para a Chefatura de Polícia do Distrito Federal. Um primeiro prenúncio das medidas reacionárias que estavam por vir.
Mas em 07 de novembro Getúlio Vargas deixou claro em seu Diário, suas intenções:

“Não é mais possível recuar. Estamos em franca articulação para um golpe de Estado, outorgando uma nova Constituição e dissolvendo o Legislativo. Recebi o deputado João Neves, os ministros do Trabalho, Fazenda, Exterior e Guerra, o senador Macedo Soares e, por fim, o Dr. Francisco Campos, que trouxe já prontos o projeto da nova constituição e a proclamação a ser lida. Redigida por ele, de acordo com o esboço que fiz e as notas que lhe forneci, provavelmente será na próxima Quinta feira”. (VARGAS, 1995:80, vol. II)

Getúlio não teve apoio de todos os segmentos, seu ministro da Justiça pede demissão e em seu lugar ficou Francisco Campos. Também alguns políticos denunciavam a tentativa de golpe conclamando o Exército, como é o caso de Armando Sales que enviou carta ao Congresso, no documento alertou os militares sobre o golpe que se projetava, conclamando-os a impedi-lo. Também o candidato a presidência pela situação, José Américo, acompanhado pelo Luzardo, foi ao ministro da Guerra e também afirmou saber da existência de uma trama de golpe e propôs a retirada de sua candidatura em favor de um candidato único, mas o general Dutra recusou a proposta. Neste sentido Vargas resolveu adiantar seu próximo movimento: o Golpe “Em vista disso, era preciso precipitar o movimento, aproveitando a surpresa. (...). Mandei chamar em seguida o chefe de Polícia e o ministro da Justiça. Com este e o ministro da Guerra, combinamos todas as medidas. ” (VARGAS, 1995:83, vol. II).


Assim no dia 10 de novembro de 1937, as duas casas do Congresso amanheceram guardadas pela polícia, no Guanabara reuniu-se o Ministério e foi assinada a nova constituição. E à noite, Vargas fez seu primeiro pronunciamento pelo rádio, após o golpe, conhecido como “Manifesto à Nação”. Durante a proclamação, Vargas anunciou a entrada em vigor da nova Constituição e as medidas institucionais que seriam instauradas pelo novo regime, visando “reajustar o organismo político às necessidades econômicas do país”.
Vargas ficaria no poder até outubro de 1946, quando recebeu um ultimato de generais das Forças Armadas, pois a sua intenção era de novamente, manter-se no cargo. E em 1951 voltaria ao cargo de chefe da Nação, só que desta vez “pelos braços do povo”, através de eleições diretas. Vargas só deixaria o poder com sua morte, em 24 de agosto de 1954. Face à tentativa de um golpe militar que visava derrubá-lo, suicida-se, deixando a famosa carta-testamento: “Era o mesmo Maquiavel terçando armas contra o destino, prevendo as possibilidades e o futuro dos acontecimentos e tentando pôr-se a sua frente” (HARTAMNN, 1984:110).
Assim passamos a analisar outra lição deixado pelo escritor florentino: é importante para o governante ser amado e ser temido, mas como é difícil combinar ambas as coisas, muitas vezes é preciso optar entre uma e outra. Nesta hipótese, Maquiavel coloca, “é mais seguro ser temido do que ser amado”- isto porque “os homens têm menos receio de ofender a quem se faz amar do que a outro que se faz temer” (MAQUIAVEL, 1979:79). Ao longo da historiografia vemos que Getúlio Vargas é amado por muitos e temido por outros. Devido as artimanhas que este utilizou-se para permanecer no poder, Getúlio Vargas passou a ser interpretado de diversas maneiras, algumas positivas e outras nem tanto, mas, não podemos deixar de destacar que tratou-se de um dos maiores estadistas que este país já teve.

Considerações Finais


A obra de Maquiavel não pretende ensinar a moral e sim a arte de governar. Em seu livro O Príncipe, Maquiavel dá conselhos aos governantes, onde entende que não é só a virtude do homem público que conduz ao bem comum, mas o uso criterioso, tanto da virtude quanto do “vício”. Segundo Maquiavel, o governante que restringe-se apenas à prática da virtude não teria êxito, pois “o príncipe também não deverá importar-se de incorrer na infâmia dos vícios sem os quais lhe seria difícil conservar os Estado” (MAQUIAVEL, 1979:73-4). A moral que Maquiavel propõe para o governante não é a moral da tradição, mas a força e a coragem do agente político de usar todos os meios necessários para a eficácia da ação, inclusive os maus. É o “saber entrar no mal, se necessário”, pois “o que conta por fim são os resultados” (MAQUIAVEL, 1979:84-85). Assim a política separa-se da ética e o governante maquiavélico torna-se aquele que se arma do lema: “o fim justifica os meios”.
Desta forma, analisando as ações que calcaram a disputa política entre Getúlio Vargas e Flores da Cunha, ao longo do período pesquisado, observamos que Vargas utilizou-se de todos os meios possíveis para permanecer no poder. Rompeu com antigos aliados e aliou-se a antigos inimigos políticos. A partir de relatos retirados de seu próprio Diário podemos percebemos o progressivo esfriamento de sua relação com Flores da Cunha, que outrora fora seu principal aliado político. Flores da Cunha teve que fugir do país e exilar-se no Uruguai, pois seu posicionamento em defesa ao regime democrático e a seus instrumentos (realização do pleito eleitoral), já não serviam aos interesses de Getúlio, que pretendia manter-se no poder a qualquer custo, utilizando-se de todos os “meios” possíveis para realizar este “fim”. Conforme Maquiavel ensinará ao príncipe: “O fim justifica os meios”.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Ø  CARONE, Edgard. A Republica Nova (1930-1937). São Paulo: Difel, 1982.
Ø  CUNHA, Flores da. Discursos Parlamentares. Seleção e introdução: Nize Pellanda. Perfis Parlamentares Brasília, Câmara dos Deputados, 1982.
Ø  HARTMANN, Ivar. Getúlio Vargas. Porto Alegre: Tchê Comunicações Ltda., 1984
Ø  NEDEL, José. Maquiavel concepção antropológica e ética. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.
Ø  PELLANDA, Nize. Flores da Cunha. Coleção esses gaúchos. Ed. Tché Comunicações Ltda. Porto Alegre, 1986.
Ø  PENSAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.
Ø  SCHNEIDER, Regina Portella. Flores da Cunha; o último gaúcho legendário. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1981.
Ø  VARGAS, Getúlio. Getúlio Vargas: Diário. Apresentação de Celina Vargas do Amaral Peixoto; edição de Leda Soares. Volume I e II São Paulo: Siciliano; 1995.




[ César Fernando Canto da Silva e Simone Drebis Cezimbra. Alunos da Faculdade Porto-Alegrense de Educação Ciências e Letras, curso de História.