25 de mar de 2016

Movimentos de Resistência

Movimentos de Resistência ao Regime de Apartheid na África do Sul:
uma análise sobre a imprensa gaúcha.
Simone Drebis Cezimbraà

Resumo
A África do Sul foi a nação onde o racismo teve maior influência na vida de seus habitantes, sua antiga Constituição incluía artigos de clara segregação racial. Mas ao longo de sua história esse processo sofreu momentos de ferrenha resistência. Exemplo disso foram os distúrbios ocorridos em 1976 no distrito de Soweto que serão analisados neste artigo através da analise das informações transmitidas pelos periódicos gaúchos Jornal Zero Hora e Correio do Povo sobre o fato. Também fornecemos uma visão geral sobre o apartheid e os mecanismos utilizados pela classe dominante africânder para se perpetuar no poder.

Palavras-chave: Apartheid, Soweto, Jornal Zero Hora, Correio do Povo.


O regime de “Apartheid” [1], implantado na África do Sul desde 1911 garantiu que o poder político e econômico ficasse em mãos de uma minoria branca – predominantemente africâner [2] - até 1994 e consolidou, dessa forma seu poder sobre a maioria da população negra prolongando o processo de domínio que já vinha desde o período colonialista. Ao longo desse período o governo branco promulgou uma série de leis que promoveram a segregação racial.

“A África do Sul é a única nação do mundo que inclui o racismo na sua Constituição e é também o único país em que a cor da pele determina inelutavelmente a categorização dos cidadãos na hierarquia social” [3]. .

A política de segregação racial tirou dos negros os seus direitos políticos e mergulhou a África do Sul em uma das fases mais obscuras da história da humanidade, aumentando a convicção de alguns que se tinham encontrado uma fórmula que garantiria o futuro de uma minoria branca para o próximo século.
Até recentemente os brancos mantiveram ferrenha a sua política de segregação racial e só a partir de 1980, diante de pressões internas e da comunidade internacional, o governo sul-africano passou a adotar algumas medidas para abrandar o regime. No entanto esse processo de abertura ocorreu principalmente devido aos movimentos de resistência que ocorreram internamente na sociedade sul-africana, onde destacamos a organização da população negra através da criação de vários organismos e através do surgimento de lideranças que estimularam e participaram destes movimentos de resistência como: Nelson Mandela, o bispo Desmond Tutu, e Steve Biko.
Nelson Mandela
Pretendemos neste trabalho analisar um dos importantes momentos dessa resistência negra na África do Sul conhecido como o “Levante de Soweto” que ocorreu em 1976, quando estudantes saíram as ruas para protestar contra o sistema educacional. Desejamos tornar esse processo de resistência mais conhecido através de uma óptica de pesquisa diferenciada que utilizará como fonte de pesquisa os periódicos gaúchos: Correio do Povo e Jornal Zero Hora do período. 
Desmond Tutu
Pretendemos verificar como se comportaram os meios de comunicação, enquanto fornecedores de informação, a respeito do tema em um período em que a sociedade brasileira vivia sob um Regime Ditatorial. Verificaremos se ocorreram diferenças no posicionamento entre os dois jornais sobre o acontecimento pesquisado. 
Steve Biko
A importância do tema consiste em esclarecer que foi necessário que ocorressem mobilizações de resistência popular como esta, para que o resto do mundo tomasse consciência dos antagonismos existentes na sociedade sul-africana e assim, através da pressão internacional da opinião pública, o governo racista da África do Sul fosse condenado e obrigado a realizar mudanças.

Apartheid: histórico
O Governo de minoria branca que foi oficializado em 1948 com a chegada ao poder do Partido Nacional institucionalizou no início da década de 50 um regime legislativo de segregação, e ao longo dos anos estabeleceu várias leis que promoveram e ampliaram a discriminação racial, exemplo disso foi a lei básica do regime branco que estabelecia áreas de separação geográfica entre as categorias raciais - os bairros étnicos ou os bantustões [4]

Zonas para brancos e zonas para negros
A separação espacial também era obrigatória em praias, transportes, piscinas, bibliotecas, banheiros públicos, teatros, cinemas e outros lugares públicos. 

Praias

Esse processo foi chamado de “pequeno apartheid”, a partir daí foi tentado a implementação do “grande apartheid” que pretendia uma África do Sul totalmente branca, dessa forma os bantustões tornar-se-iam estados independentes e seus moradores passariam a ser cidadãos desses pequenos países, mas estrangeiros no restante do território da África do Sul inclusive nas regiões onde trabalhavam. Com esta política os brancos conservavam 87% das melhores terras do território da África do Sul, deixando para a população negra somente 12,7% do território. 

Resultado de imagem para apartheid bebedouro
Bebedouros separados
Este regime também criou leis sobre o convívio entre as raças, como a lei do matrimônio onde as uniões mistas eram consideradas ilegais, lei do passe que controlava o movimento da mão-de-obra negra na região branca e leis que regulavam os sindicatos e as greves.
Banheiros separados

Resistência
A história sul-africana mostrou o quanto uma distribuição de poder pode ser distorcida e ao mesmo tempo legalizada podendo resultar num sistema social deformado apoiado por forças de repressão enérgicas, mas a história também mostra que uma oposição, mesmo fora das estruturas legais pode desafiar este poder. Algumas formas dessa resistência podem ser notadas através de soluções desesperadas como os suicídios de negros da etnia Xhosas em 1857, revoltas rurais de pequena escala; ou nas uniões políticas entre os trabalhadores rurais e urbanos. Antes mesmo da criação do Partido Nacional africânder em 1914, foi fundado o Congresso Nacional Africano (CNA) em 1912, cujos protestos contra as decisões da Convenção Nacional branca em 1909 passaram despercebidos. Em 1959 foi formado o Congresso Pan-Africano (PAC), ambos não utilizavam a violência como forma de protesto. Inicialmente o CNA tentou contar com a colaboração de brancos liberais, mas estes últimos foram incapazes de formar uma base de poder. Assim a população negra passou a buscar outros tipos de organizações, principalmente as que possuíssem uma postura mais radical ou voltada para ações diretas através de ostensivas manifestações de descontentamento como greves, boicotes ou sabotagens.
Manifestações em Sharpeville 

Então, em 1960, veio Sharpeville onde a polícia matou 69 e feriu 180 manifestantes na província de Transvaal que protestavam contra a lei de passes. Tratava-se de uma manifestação pacifica onde os operários negros se apresentavam sem passes na delegacia de polícia.

Massacre

“O CNA planejava sua própria campanha antipasses, mas foi o PAC que chegou primeiro. Foi, no distrito negro de Shaperville, oitenta quilômetros ao sul de Johannesburgo, perto das siderúrgicas estatais, que levou a situação ao ponto crítico, com seu desemprego, alta de aluguéis e rígido controle da circulação. Milhares de negros se aglomeraram em frente ao posto policial. A polícia entrou em pânico, matando a tiros 67 negros e preparando terreno para uma revolta que logo parecia próxima da revolução” [5]..


Após os acontecimentos de Shaperville acreditou-se que governo branco abrandaria o regime revendo a legislação. Entretanto o Estado opressor passou a pressionar ainda mais os movimentos políticos negros, conduziu o CNA e o PAC a ilegalidade, e realizou prisões em massa privando os prisioneiros políticos de qualquer tipo de direito. Ainda levar-se-iam alguns anos para que ocorresse algum tipo de transformação neste regime segregacionista.
Nelson Mandela
Na década de 60 o CNA passou a ser liderado por Nelson Mandela, que já era considerado uma lenda neste período. Ele pretendia manter o movimento sem utilizar a violência, promovendo greves e passeatas, exemplo foi o movimento “fique em casa”, pós-Shaperville que previa uma greve de três dias, mas sua tentativa acabou sendo frustrada pelo Exército e polícia que agiram energicamente. Assim o CNA passou a utilizar outras estratégias como a violência controlada, realizando sabotagens na rede de infra-estrutura do Estado. Em 1961 Mandela criou o movimento “Lança da Nação” que tornou-se o braço armado da organização, seus membros ganharam treinamento de guerrilha fora do país. Neste período Mandela passou a ser perseguido pelo governo africânder e acabou sendo preso em 1962, e condenado a prisão perpétua.
Nos anos 70 o equilíbrio começou a mudar. Iniciou-se um período de recessão econômica, devido a crise do petróleo e a estagnação da agricultura e da indústria que por conseqüência gerou desemprego e novas greves na África do Sul. Neste período também nascia o Movimento da Consciência Negra, filosofia criada por Steve Biko que pretendia transformar o pensamento negro extinguindo o sentimento de inferioridade internalizado durante os anos em que foram submetidos pelo poder branco. Tratava-se de uma nova forma de lutar contra a segregação racial da África do Sul. Steve Biko acreditava na possibilidade de utilizar manobras pacificas contra o regime, sem utilizar a violência tentava operar dentro dos limites da lei sul-africana. Sua ideologia ajudou a constituir e conscientizar uma nova geração de negros.

Steve Biko 

A confirmação da adoção desta nova forma de luta veio em 1976 com a manifestação de estudantes em Soweto. Este episódio teve inicio quando o governo africânder passou a pressionar o sistema de educação para que a língua oficial ensinada nas escolas negras passasse a ser o afrikaans, professores e alunos não aceitavam tal imposição, pois desejavam aprender o inglês que poderia oferecer-lhes melhores oportunidades de trabalho nas industrias, além do mais o afrikaans era a língua do opressor. Dessa forma iniciou-se uma série de protestos entre os quais o de Soweto que, sem dúvida foi o mais importante e o mais conhecido.
Soweto era um subúrbio negro que devido à recessão da economia e a superpopulação encontrava-se preste a explodir, mas o que ninguém imaginava é que seriam as crianças que acederiam o pavio.

Soweto

“Soweto explodia. Dez mil estudantes negros marcham pacificamente para a escola onde a greve começara, onde se defrontam com a polícia, que utilizou gás lacrimogêneo. As crianças atiram pedras, a polícia revidou abrindo fogo e matando uma criança. (...)”.[6]

crianças
Os tumultos de Soweto influenciaram outros movimentos que se alastram para outras regiões. Os estudantes passaram a se organizar realizando greves e passeatas e tiveram êxito, pois o governo acabou voltando atrás sobre as normas de ensino. A partir de Soweto iniciou-se uma nova fase no regime do apartheid alternando-se entre transformações no seio do próprio regime e modificação de atuação dos movimentos anti-apartheid. Os acontecimentos chocaram a opinião pública internacional que passou a posicionar-se contra o regime racista da África do Sul, alguns empresários temeram por seus negócios e se retiraram do país. Uma semana de violência conseguiu mais que décadas de pressões políticas. Mas o governo não refreou a repressão e voltou a impor a ordem nos distritos negros. Culparam o CNA, o PAC e os comunistas, voltaram a prender lideranças. E entre estas estava Steve Biko que mesmo sem estar diretamente envolvido com a revolta de Soweto, foi preso em 1977 e alguns dias depois a polícia anunciava a sua morte dentro da prisão.

P. W. Botha
Em setembro de 1976 P. W. Botha assumiu como primeiro-ministro e realizou algumas reformas no regime, no entanto suas mudanças não alteraram o caráter racista do regime. Foram simples reformas de governo que davam ainda maior poder aos militares e a polícia, proibindo qualquer tipo de agitação. Botha concedeu algum poder a alguns líderes negros considerados confiáveis pelo regime a fim de formar uma classe média negra disfarçando dessa forma o caráter discriminatório do regime. Outra medida de Botha foi reconhecer os sindicatos negros, na verdade ele estava realizando um desejo da maioria dos empresários brancos que assim poderiam negociar com os trabalhadores negros: “o argumento de muitos industriais de que era mais seguro tratar das queixas dos negros dentro de um sindicato do que fora”.[7] Assim os sindicatos poderiam ser fiscalizados e controlados impedindo a agitação política, pois esta era proibida, mais uma vez a legislação ia de encontro com a luta do negro sul-africano.
Os anos 80 iniciaram-se com uma série de movimentos de sabotagem, ataques a delegacias, carros bombas e, em represália o governo atacou supostas bases do CNA nos países vizinhos. A luta dos africanos negros após - Soweto passou, além de buscar a liberdade e o fim do regime racista, a visar à transformação da sociedade buscando uma maior redistribuição das riquezas: “desenvolve-se um enorme sentimento contra o capitalismo sul-africano, responsabilizado por tantas e tão profundas desigualdades”.[8] Os negros passaram a ver os homens de negócios como opressores e identificavam o apartheid ao sistema capitalista. Agora além de por fim ao apartheid também passaram a tentar subverter o sistema capitalista.

Superação

Em 1989 F.W. de Klerk venceu as eleições pelo Partido Nacional e tornou-se o novo presidente da África do Sul. De Klerk passou a realizar algumas reformas, mas os organismos anti-apartheid continuavam céticos, tentou uma aproximação com o CNA que aproveitou para fazer exigências políticas, como libertar os prisioneiros políticos e por fim ao banimento das organizações políticas. Assim em 1990 de Klerk anunciou o retorno a legalidade do CNA, do PAC e de outros organismos e o mais importante, anunciou a libertação de Nelson Mandela depois de ter passado 28 anos na prisão. Iniciava-se dessa forma o processo de abertura do regime segregacionista que pretendia conduzir um governo de Unidade Nacional amplo com o apoio do CNA e demais organizações anti-apartheid. Criou-se uma base de confiança que possibilitou que todos os partidos políticos, negros e brancos, se reunissem entre o período de 1991 a 1993 e se esforçassem para criar uma Constituição de transição. Em outubro de 1993 o presidente De Klerk pediu perdão pelo apartheid e um ano depois ele e Mandela receberam o Prêmio Nobel da Paz.

F.W. de Klerk 
As primeiras eleições multirraciais ocorreram em 27 de abril de 1994 e Nelson Mandela saiu candidato pelo Congresso Nacional Africano tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul. Em 1996 foi decretada a nova Constituição que previa novas eleições para 1999, onde venceu Thabo Mbeki, que havia sido vice-presidente de Mandela, foi a segunda vitória do partido CNA. Dessa forma o maior desafio para o CNA, para Mandela e para todos os sul-africanos passou a ser: fazer da África do Sul um país mais humano e com melhores condições de vida para a maioria da população.
A África do Sul é um país de grande importância estratégica para o mundo ocidental rica em ouro, diamantes, carvão, ferro, minérios, cromo e urânio, vital para a indústria militar, ao longo de sua costa viajam quase todos os navios que transportam petróleo para o Ocidente. Mas a África do Sul foi também um país onde a maioria da população negra não possuía direitos políticos e viviam em guetos miseráveis e superpovoados. O governo era composto quase que exclusivamente de brancos. De uma minoria de brancos que gozava de alto padrão de vida e detinham o poder econômico e político. Essa dominação foi exercida durante séculos e aprofundou-se devido a utilização de mecanismos presentes no interior da própria sociedade e que influenciaram na formação de corações e mentes dessa sociedade.
A ideologia do apartheid foi difundida ao longo da história da África do Sul e reproduzia o ideal de vida da classe dominante. Podemos entender como se perpetuou esse domínio branco através dos séculos a partir dos conceitos que Althusser formulou sobre os mecanismos hegemônicos utilizados pelo Estado. Segundo Althusser o Estado se utiliza dois tipos de aparelhos: os Aparelhos Repressivos do Estado (ARE) como a polícia e o exército e os Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) como: a igreja, a escola, os sindicatos, os meios de comunicação. A citação abaixo nos possibilita detectar pelo menos como dois desses mecanismos foram utilizados como difusores da ideologia dominante na África do Sul.

“A história apresenta os africânderes como um povo escolhido e colocado por Deus na ponta meridional da África para cumprir uma missão divina: a de trazer os povos ‘bárbaros’ à civilização. (...) Portanto a religião fundamenta a história, cria a nacionalidade africânder e determina a organização social e política da África do Sul”.[9] .

Primeiramente temos o mecanismo religioso que, quando estabelece a noção de “povo escolhido por Deus” o faz evidenciando a superioridade dos africânderes sob os demais na sua “missão” civilizadora. E em segundo encontramos o mecanismo da educação enquanto transmissora (através das escolas) dessa história, que neste caso é a história da “missão” dessa classe dominante – africânder – que foi transmitida a todas as classes sul-africanas. O Levante de Soweto também pode nos servir como um bom exemplo para entendermos como esses Aparelhos de Estado funcionaram na África do Sul. Este evento foi uma manifestação de estudantes negros que protestaram contra o sistema educacional do governo racista que tentou impor o “africâner” como língua vernácula nas escolas para negros. Novamente verificamos a tentativa de utilização da instituição educacional para tentar manter o “status quo” da classe dominante, através do uso de um dos símbolos do dominador – a língua. Ainda neste episódio observamos que também foi utilizado, contra os estudantes, o Aparelho Repressivo de Estado, neste caso a polícia, fato esse que resultou em um massacre, pois conforme foi visto tivemos uma contra-resposta da classe dominada que se organizou realizando uma passeata a fim de protestar. Ou seja, mesmo controlando os Aparelhos Ideológicos e Repressivos a classe hegemônica não consegue manter durante todo o tempo sua supremacia ideológica sobre as classes dominadas. As contradições entre as classes acabam sempre aflorando.
O atual presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, durante uma grande passeata que marcava os 25 anos do Levante de Soweto declarou que a luta contra o racismo continua apesar do apartheid ter acabado em 1994, segundo ele o país ainda tem um longo caminho pela frente. Quase 30 anos depois dos bárbaros acontecimentos o bairro que já tinha o tamanho de uma cidade ficou ainda maior, hoje Soweto tem quilômetros de comprimento e largura e possui casas luxuosas e mansões, alguns de seus moradores ostentam riqueza, mas sabem do risco de ter muito em um lugar em que muitos quase nada têm, conforme afirma um de seus moradores Jimmy:

“O apartheid acabou, mas agora temos o apartheid econômico, em qualquer parte do mundo, argumenta Jimmy. Ele acredita que as mudanças mais profundas dependem das novas gerações.’Temos a esperança de que nós vamos melhorar juntos - negros, brancos, amarelos. Agora, somo iguais perante a lei, e isso não é um sonho”.[10]

As populações da África do Sul continuam assim seu caminho, ainda marcadas pelo estigma da cor e pelas lembranças do apartheid racial. Prosseguem na sua luta, agora contra o outro tipo de apartheid, o apartheid econômico.

O Levante de Soweto
repercutido[11] pela Imprensa Gaúcha

Em junho de 1976 iniciou-se na África do Sul uma semana de constantes conflitos entre os negros sul-africanos e a polícia branca, o incidente ficou conhecido como o “Levante de Soweto”. Soweto era então um bairro negro de Johannesburgo e os distúrbios e tumultos se iniciaram quando um grupo de estudantes negros saiu em marcha para protestar contra a imposição da língua afrikaans nas escolas negras, essa era considerada a língua do dominador. A principio tratava-se de um protesto pacífico, mas quando os estudantes defrontaram-se com a polícia se iniciaram os distúrbios. A polícia lançou gás lacrimogêneo e cães contra os manifestantes e estes passaram a revidar com paus e pedras. Os policiais passaram a utilizar suas armas matando em torno de 25 pessoas. E no final de alguns dias de conflitos foram mais de 100 mortos, mil feridos e muitos presos. A partir desses distúrbios, que representaram a resistência de um povo contra a opressão é que o regime de apartheid começou a sofrer pressão da opinião pública internacional, devido a grande repercussão dos fatos dada pela mídia. Assim passaremos a verificar como foram descritos e analisados os acontecimentos ocorridos no bairro negro de Soweto nos periódicos gaúchos: Correio do Povo e Zero Hora do período.

O Levante de Soweto repercutido
pelas páginas do Jornal Correio do Povo

Os tumultos de Soweto iniciaram-se em 16 de junho de 1976, e um dia após o jornal Correio do Povo já destacava em sua primeira página[12] a manchete: “Polícia de Johannesburgo mata seis africanos em protesto de estudantes”. A partir daí os acontecimentos ocorridos na África do Sul passaram a ser notícia e geralmente os artigos eram acompanhados por fotos. A primeira notícia sobre o distúrbio foi relatada dessa forma:

“A Polícia sul-africana disparou hoje contra uma multidão de 10 mil estudantes negros que realizavam uma manifestação de protestos, cantando ’Deus salve a África’ e fazendo saudações com o punho fechado. Os negros mataram um branco a facadas e um outro morreu apedrejado, segundo informaram as autoridades policiais. Pelo menos seis pessoas foram mortas e 33 ficaram feridas durante os distúrbios provocados pela maior manifestação antigovernamental em muitos anos. Os protestos começaram na cidade de Soweto, 25 Km ao sul de Johannesburgo, onde vivem cerca de  um milhão de negros. Milhares de estudantes negros de Escolas secundárias Phefeni, protestando contra o fato de serem obrigados a aprender a língua ‘afrikaan.’ (...). A Polícia alegou que eles começaram a jogar pedras e incendiaram cerca de 50 veículos policiais que se dirigiram para o local (...)”. [13]

Podemos perceber que o periódico já destacava em sua notícia o motivo que gerou os protestos dos estudantes, a imposição da língua afrikaans, o autor também enfatizou a quantidade de manifestantes negros. Soweto possuía no período uma superpopulação que sofria graves problemas devido à recessão econômica que afetou várias localidades causando desemprego. O periódico seguiu relatando a forma de como a polícia de reagiu aos protestos.

“O coronel Johan Visser, comandante da Polícia de Soweto, disse que seus homens fizeram disparos de advertência sobre as cabeças dos manifestantes, mas ‘foram obrigados a atirar contra a multidão quando esta continuou a atacar e a vida dos policiais ficou em perigo’ (...)”.[14]

No dia seguinte 18 de junho de 1976 os acontecimentos voltaram a ser Manchete: “Protesto Negro na África do Sul já causou 41 mortes em dois dias”. Neste dia destacamos ainda o espaço que o periódico dedicou a fala de um líder negro Zulu sobre os acontecimentos de Soweto.

“O chefe Gatsha Buthelezi, líder político da tribo Zulu, disse que os distúrbios não teriam ocorrido ‘se o primeiro-ministro (John Vorster) tivesse ouvido os líderes tribais em nossas reuniões com ele em 1974 e 1975. Mas, porque, o que os negros pensam não interessa ele nos ignoram e pensaram, como sempre, que se sairiam bem. (...) A simples idéia de crianças sendo mortas a tiros dará uma imagem desumana da África do Sul’ acrescentou”.[15]

No dia seguinte o jornal Correio do Povo trouxe a manchete: “África do Sul põe reservistas em prontidão ante o aumento da revolta”. O noticiário destaca que os conflitos se espalharam na região atingindo outros bairros como Alexandra, Natalspruit, Tokosa e Daveyton. O leitor pôde notar, a partir da fala do chefe de policia local e das declarações do primeiro-ministro sul-africano todos os mecanismos seriam utilizados contra os amotinados.

“ (...) A polícia recebeu ordens expressas de empregar todos os meios disponíveis para sufocar as desordens. Esta tarde o subchefe da polícia, brigadeiro J.F. Visser, afirmou, em entrevista: ‘Minha paciência esta ao ponto de terminar. De agora em diante, recorreremos a métodos mais rígidos. A situação derivadas dos motins piora, porém não esta fora de controle. (...) Por sua vez, o primeiro-ministro John Vorster, em discurso ante o Parlamento, afirmou que os distúrbios constituem um esforço determinado para causar pânico e polarizar os negros e brancos. ‘Não seremos intimidados e manteremos a lei e a ordem a qualquer preço ’, advertiu Vorster.” [16]

Já no dia 20 de junho de 1976 foi editada uma coluna muito interessante, intitulada “O temor dos africanos moderados”, e foi escrita por Jonh F. Burns e copiada do The New York Times. O autor inicia relatando a posição de um jovem negro sul-africano chamado Moses Dineka de 20 anos, sobre os últimos acontecimentos ocorridos em seu bairro, Soweto: “(...) Preciso ter um bastão, ou alguma coisa parecida, disse Dineka (...). Se eu não estiver armado, dirão que estou do lado dos brancos e me matarão”[17]. O colunista seguiu argumentando que os distúrbios que estavam ocorrendo em Soweto eram um erro que somente gerou mortes e sofrimento entre a população negra. Segundo seu posicionamento os protestos não representavam atos espontâneos de resistência e sim manifestações de uma turba[18] que só pretendia criar confusão, não possuíam apoio da maioria da população negra que agora temia sofrer represálias da polícia branca. Burns criticou ainda a forma de protesto utilizada pelos sul-africanos negros para chamar atenção a sua causa. Em nenhum momento o autor comentou sobre a origem das causas do protesto ou sobre as leis racistas institucionalizadas que regiam o país, ou seja, o autor não fez uma leitura histórica sobre os acontecimentos.
Entre os dias 22 e 25 de junho de 1976 o jornal Correio do Povo passou a relatar sobre o encontro entre o primeiro-ministro John Vorster e o secretário de estado norte-americano Henry Kissinger na Alemanha Ocidental. Segundo o periódico o primeiro-ministro sul-africano em sua estada na Alemanha sofreu constantes protestos populares contra o apartheid. No dia de 23 de junho de 1976 encontramos a manchete de capa: “Kissinger quer evitar a guerra racial na África”.[19] E o artigo segue relatando a repercussão dos acontecimentos ocorridos na África do Sul durante o encontro das autoridades e relatando também a posição oficial das nações a que representam.

“Os Estados Unidos tentarão evitar ‘uma guerra racial’ no sul da África, acertando negociações entre os governantes brancos e a maioria negra, segundo declarou hoje o secretário de Estado Henry Kissinger”. “Enquanto isto, em Bonn, o chanceler alemão Helmut Schmidt revelou que dirá a John Vorster que seu governo considera como uma ameaça à paz a política racial seguida por Pretória. (...) e ainda alega que o governo federal é da opinião que a separação das raças faz perigar o desenvolvimento pacífico do continente africano”. “O chanceler Helmut Scmidt, no entanto não quer fazer uso de sanções econômicas contra a África do Sul para forçá-la a por fim ao apartheid”. [20]

Segundo as notícias que se seguiram durante esse período da viagem do primeiro-ministro sul-africano, verificamos diversas vezes a insistência do secretário de estado norte-americano, Henry Kissinger, para que Vorster promovesse alterações em seu governo de minoria branca. No entanto a acessória de Vorster já avisava que o primeiro-ministro não estava disposto a ceder em sua posição, este declarou: “(...) que a África do Sul continuaria se opondo a toda medida de ordem econômica que for usada como sanção contra o governo branco da Rodésia” [21]. Vorster deixava clara sua posição quanto a qualquer tipo de tentativa da alteração em sua política de apartheid, tentava proteger seu governo, inclusive através da defesa de um cinturão de governos brancos em torno do território sul-africano. Vorster ainda acusou a imprensa estrangeira de exagerar sobre os fatos acontecidos no território sul-africano.
No dia 24 de junho de 1976, encontramos um artigo bastante interessante escrito por Humplrey Tyler, neste artigo, intitulado “Soweto abalou os sul-africanos”, o autor lançou novas nuances sobre os conflitos ocorridos em Soweto, esboçou ao leitor a importância econômica da população negra de Soweto como “força de trabalho das indústrias e empresas comerciais da ‘cidade do ouro’, vizinha, Johannesburgo, a capital financeira e industrial da África do Sul (...)”[22]. Tyler finalizou seu artigo alertando sobre o “desleixo” do governo sul-africano para os sinais que prenunciavam os acontecimentos que se seguiram e sua incapacidade de dialogar com os líderes africanos.

“(...) Parece claro que o governo permitiu que surgisse esta ‘guerra de crianças’ ao ignorar durante mais de uma semana, as advertências dos líderes africanos moderados – ou colaboracionistas, segundo os ativistas – de que a cidade estava a ponto de se rebelar devido a serem os estudantes decididamente contrários ao emprego obrigatório do afrikaans em suas escolas”.[23]

O periódico ainda demonstrou em suas páginas que alguns segmentos da sociedade africana colocavam em dúvida as boas intenções do secretário norte-americano e não viram com bons olhos o encontro deste com o primeiro-ministro sul-africano. O jornal Correio do Povo deu destaque a algumas destas vozes, assim a manchete em 27 de junho de 1976 era a seguinte: “Africanos acusam EUA de colaborar com Pretória na repressão dos distúrbios”.

“A Organização da Unidade Africana – OUA - acusou hoje os EUA de possíveis colaborações com as recentes revoltas sul-africanas e decidiu formar uma comissão especial que elabore uma nova estratégia para derrubar o governo de Pretória. A reunião anual da OUA também condenou os EUA por ‘frustrar as aspirações do Terceiro Mundo’ nas Nações Unidas, e começou a trabalhar numa emenda à Carta do Organismo Mundial na tentativa de eliminar o poder de veto”. “O porta-voz da OUA, Peter Onu declarou que ‘não surpreende a OUA que ‘as recentes matanças ocorreram’ depois que o secretário de estado norte-americano Henry Kissinger visitou a África do Sul e em seguida se entrevistar com o primeiro-ministro John Vorster na Alemanha Ocidental”. [24]

Ainda neste mesmo artigo encontramos a posição de um jornal soviético o “Pravda”. O periódico soviético fazia acusações sobre as reais intenções dos encontros mantidos entre o primeiro-ministro sul-africano e o secretário de estado norte-americano: “(...) o significado dessas negociações a salas fechadas é bem claro: salvar do colapso as bases do atual regime racista com a ajuda de manobras ou declarações de pequena importância”.[25] O artigo ainda acusou Vorster de “agir de uma forma criminosamente inexorável” ao tratar o caso de Soweto. O artigo soviético também deu um enfoque econômico, alertando para o que estava por de trás dos acontecimentos de Soweto: “A África do Sul extrai (de suas minas) 75% do ouro do mundo capitalista e garante grandes lucros aos monopolistas investidores disse o Pravda, os EUA investiram um bilhão e 500 milhões de dólares na economia da África do Sul” [26]. Dessa forma o leitor mais atento pôde analisar que existiam interesses internacionais sobre o regime da África do Sul e os conflitos ocasionaram perdas econômicas para esses grupos, devido às paralisações e greves que se seguiram, era necessário restabelecer a ordem.
Durante dez dias os acontecimentos ocorridos na África do Sul foram notícia freqüente no jornal gaúcho Correio do Povo, após este período os artigos sobre o caso escassearam, suprimidos por novas notícias, novos fatos nacionais e internacionais. Mas podemos perceber que o jornal Correio do Povo durante este período fez uma ampla cobertura sobre o fato. Destacamos principalmente a linguagem clara utilizada pelo periódico que geralmente enfocava de forma sinistra o regime político imposto por uma minoria branca a uma população negra. Passaremos agora a verificar como foram noticiados os fatos ocorridos em Soweto através do periódico de Porto Alegre chamado Zero Hora.

O Levante de Soweto repercutido
pelas páginas do Jornal Zero Hora

Os tumultos de Soweto passaram a ser notícia nas páginas do jornal Zero Hora a partir de 17 de junho de 1976 da seguinte forma:

“Oito pessoas foram assassinadas, duas delas decapitadas a machete (uma espécie de sabri) nos violentos incidentes raciais que ocorreram ontem num bairro de Soweto, subúrbio negro de Johannesburgo. Mais de 300 policiais brancos armados com metralhadoras e pistolas lança-gases, destacamento de cães amestrados, helicópteros e ambulâncias foram  enviados para combater a ira racial que explodiu numa escola negra, ferindo 14 pessoas. Os distúrbios de ontem ocorrido a negativa oficial de cessar o ensino de língua afrikaan – dialeto holandês e do inglês – nas escolas secundárias do bairro Orlando, localizado em Soweto. Mais de 2.000 alunos estavam em greve há vários dias, em sinal de protesto contra a implantação do afrikaan em junho.”[27]

Destacamos neste artigo a forma de como foram dadas certas informações, primeiramente sobre a reação da polícia à passeata realizada pelos estudantes, no artigo ainda sobressai o dado referente à quantidade de policiais e o armamento utilizado contra os estudantes. Também ressaltamos a informação sobre o motivo que levou os estudantes a realizarem tal protesto. O artigo informou também o número de mortos, porém não identificou se estes eram brancos ou negros.
A partir de 18 de junho de 1976 as informações dadas pelo periódico sobre os distúrbios foram mais claras, relatavam os motivos que deram origem aos conflitos e apresentavam um histórico sobre o regime do apartheid sul-africano, a manchete de capa foi a seguinte: “Mais de 50 mortos na revolta negra. Policiais e os brancos de Johannesburgo temem que os distúrbios se ampliem. Há centenas de feridos e o bairro rebelde pegou fogo” [28]. E no interior do jornal o artigo seguiu atualizando o numero de mortos e feridos e esclarecendo aspectos sobre o regime segregacionista que reinava na África do Sul.

“Punho direito fechado, símbolo do poder negro é a bandeira de luta do bairro de Soweto, de Johannesburgo, onde ocorre o mais sério incidente racial desta década (...)”. “Milhares de negros revoltados contra a polícia racista lutavam ontem contra a polícia da África do Sul, incendiavam carros e edifícios, saqueavam lojas do bairro na pior rebelião racista dos últimos anos no país. Pelo menos 50 pessoas morreram nos choques, há mais de 250 feridos e a situação esta saindo fora do controle das autoridades brancas (...). A polícia sul-africana disparou contra estudantes negros que protestavam contra a decisão do governo de transformar o idioma afrikaans um símbolo da opressão branca”. [29]

Apesar de esclarecer os acontecimentos que estavam ocorrendo na África do Sul o artigo apresentou algumas informações ambíguas ou incertas sobre os últimos acontecimentos, como nos trechos destacamos na citação abaixo.

“O governo parecia decidido, ontem, segundo afirmaram porta-vozes de Petrória e da Cidade do cabo, a examinar as causas profundas dos problemas que as comunidades negras sofrem. Os 16 milhões de negros que vivem na África do Sul constituem uma ameaça permanente contra os quatro milhões de brancos que exercem o poder político, que tem os trunfos da economia sul-africana e praticam uma política de discriminação (o apartheid). A explosão de Soweto surpreendeu os setores do governo porque alguns meios oficiais pensavam que os negros das grandes cidades estavam ‘totalmente identificados’com o sistema de vida do branco embora estivessem marginalizados dos direitos civis. (...)”. [30]

Se os negros se apresentavam como uma “ameaça permanente” o episódio não deveria “surpreender os setores do governo”. Como já foi visto os negros sul-africanos sempre lutaram por melhores condições de vida em seu país, criaram organizações para estabelecerem suas estratégias contra o regime imposto pela minoria branca. E logo em seguida o artigo trouxe o relato de um dos líderes do movimento negro que condenava a posição do governo “O chefe Gatsha Buthelezi, líder político da tribo Zulu disse que os distúrbios não teriam ocorrido ‘se o primeiro-ministro (John Vorster) tivesse ouvido os líderes (tribais) em nossas reuniões com ele em 1974 e 1975’(...)” [31].
E o artigo ainda seguiu trazendo mais informações sobre a situação econômica em que se encontrava a região, “(...) A situação agravou-se particularmente depois da recessão de 1974, que aumentou o número de desempregados no cinturão negro de Johannesburgo” [32].
As notícias sobre o Levante de Soweto seguiram por até 10 dias no jornal Zero Hora e em vários momentos percebemos que o enfoque dado pelo periódico é que o problema lingüístico teria sido apenas “um pobre pretexto para acender o pavio de um conflito político e econômico que tem profundas implicações estratégicas para todo o continente”. Também notamos através das matérias que a linha de raciocínio do periódico era a de que os negros teriam iniciado as manifestações nas vésperas do encontro entre o primeiro-ministro sul-africano, John Vorster, com o secretário de estado norte-americano, Henry Kissinger, numa estratégia a fim de chamar a atenção do mundo e, portanto teria sido algo premeditado, “(...) Os incidentes de Soweto ocorreram precisamente às vésperas da entrevista que o primeiro-ministro John Vorster terá como o Secretário de estado norte-americano, Henry Kissinger, a 23 de junho” [33].
Em seus artigos sobre os conflitos ocorridos na África do Sul, o jornal Zero Hora destacou também o posicionamento internacional frente ao regime segregacionista sul-africano. Durante os vários dias em que os fatos são notícia encontramos a posição da ONU e de alguns países sobre os acontecimentos.

“(...). A inquietação dominante na ONU se traduziu ontem no documento divulgado por Waldheim (Secretário Geral). Para reduzir a tensão da África do Sul é indispensável a adoção de medidas urgentes contra a discriminação racial (...). O porta-voz da ONU esclareceu que Waldheim está convicto de que ‘apenas a urgente adoção de medidas que ponham fim ao apartheid e a discriminação racial é capaz de terminar as tensões e as desordens na África do Sul e facilitar a procura de uma solução justa e duradoura’”. [34]

Muito interessante é a coluna de Newton Carlos [35], encontrada no dia 23 de junho de 1976, sobre os acontecimentos, seus argumentos esclarecem ao leitor muitos dos interesses que estão por de trás dos conflitos ocorridos em Soweto.
“(...) o potencial de resistência demonstrado pelos negros sul-africanos obrigou o apartheid a exibir-se mais uma vez de corpo inteiro deixando de lado a balela de ‘separados mais iguais’ e provocando nova onda de repúdio que cobre os cincos continentes. Isto tumultua os planos de Vorster de tirar o maior proveito possível do encontro com Kissinger. (...)”.[36]

Newton Carlos ressaltou a importância econômica que a África do Sul representava para as grandes potências do período, “A África do Sul é o único país africano industrializado e ainda por cima com o controle de 43% das riquezas minerais de todo o continente (...) continua a excitar as potências ocidentais (...)”. [37] Sua importância era estratégica, pois recebia vasto investimento estrangeiro de vários países Ocidentais.

“Embora com a ressalva de que não apoiarão a aplicação de sanções internacionais contra a África do Sul tendo em vista o fato não citado de que vão a um bilhão e meio de doláres os investimentos diretos norte-americanos no país, os Estados Unidos juntaram-se aos demais membros do Conselho de Segurança da ONU na condenação unânime da violência racista sul-africana. (...) Vão a 10 bilhões de dólares os investimentos estrangeiros no país do apartheid, Holanda, Estados Unidos e França travaram a pouco um duela de venda de reatores atômicos aos sul-africanos, terminando com a vitória dos franceses. (...). Toda essa gente se beneficia da mão-de-obra negra e barata (a remuneração do capital já alcançou a média de 20%) garantida pelo apartheid, definida pela ONU como ‘pedra angular’do sistema econômico e político da África do Sul”. [38]


Dessa forma, ficou claro através das elucidações de Newton Carlos, que a permanência do sistema de apartheid na África do Sul favorecia aos interesses de alguns países, muitos lucravam com ele. Através da leitura mais atenta sua coluna o leitor poderia concluir que o regime de minoria branca servia também aos interesses econômicos de muitos outros fora do país, “É preciso não esquecer que a diplomacia de Kissinger reflete basicamente os interesses das transnacionais norte-americanas (...)” [39].
A repercussão dada aos fatos ocorridos na África do Sul pelo Jornal Zero Hora foi menor ao destaque que foi dado pelo Correio do Povo, seus artigos sobre o assunto eram mais reduzidos, mas não menos elucidativos. A notícia foi ilustrada com fotos e com direito a manchete de capa[40]. Passado dez dias do Levante de Soweto a África do Sul e o regime de apartheid deixaram de ser notícia no periódico, mas conforme podemos perceber durante esse período os episódios foram relatados de maneira clara.

Considerações finais
Nos propomos a analisar como foram noticiados pela imprensa gaúcha, os acontecimentos que ocorreram na África do Sul em 1976, que ficaram conhecidos como o Levante de Soweto. Nosso objetivo foi o de verificar se ocorreu alguma diferença no posicionamento entre os jornais Correio do Povo e Zero Hora, sobre o fato pesquisado. Assim chegamos as seguintes considerações.
O fato foi veiculado de forma bastante clara e elucidativa pelos dois periódicos. Os motivos que levaram a população negra às ruas, dando inicio aos incidentes foram bem abordados, assim como a violência empregada pela polícia branca. Encontramos repercutidas, pelas páginas de ambos os jornais as manifestações de repulsa de autoridades e organismos internacionais, lemos também a crítica feita por colunistas brasileiros e estrangeiros. No entanto não encontramos nenhuma nota sobre a posição do governo brasileiro sobre os graves acontecimentos que ocorreram na África do Sul. Provavelmente isso ocorreu devido à postura do governo ditatorial que existia no país naquele período – o Brasil encontrava-se sobre um regime de Ditadura militar desde 1964, e que assim como no sul da África mantinha a população sem o direito de participar da vida política da nação.
Os meios de comunicação, que fornecem grande parte das informações a sociedade, também podem fazer parte dos Aparelhos Ideológicos do Estado e assim muitas vezes são passíveis de serem utilizados como mecanismos de controle e manutenção do poder sob a sociedade, pois “quem detém a comunicação constrói uma realidade de acordo com seus interesses, justamente para garantir o poder” [41]. Dessa forma o Regime Ditatorial poderia impor uma censura aos jornais, proibindo a publicação de determinados assuntos. Mas mesmo sobre a imposição dessa ditadura notamos que os jornais pesquisados mantiveram uma postura crítica sobre o assunto. Na verdade, o relacionamento entre Brasil e a África do Sul sempre foi ambíguo. O Brasil mantinha relações comerciais com a África do Sul desde da década de 40 e tratava a questão do apartheid como um problema “domestico[42]” a ser resolvido pelos seus agentes internos: população e governo.
Sentimos também a falta nas páginas de ambos os jornais qualquer tipo de posicionamento ou opinião vinda por parte dos leitores. Não encontramos nenhum tipo de opinião, nota ou registro emitido por alguma organização negra ou de classe. Será que não ocorreram manifestações de repúdio por parte da população gaúcha em nenhum dos períodos? Será que não houve manifestações de protestos por parte dos negros de nossa sociedade? Em nenhum dos periódicos foi possível perceber como os leitores gaúchos reagiram às notícias vindas da África do Sul, assim estas questões ficarão entreabertas. No entanto este seria o único ponto obscuro na postura dos periódicos, pois as informações aparentemente não foram controladas nem suprimidas e sofreram uma boa abordagem. Assim numa analise geral os dois periódicos se comportaram de forma positiva mantendo uma postura desfavorável ao regime de Apartheid da África do Sul.

Bibliografia
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CORNEVIN, Marianne. Apartheid: poder e falsificação históricas. Lisboa: Edições 70/Unesco, 1979 (Biblioteca de Estudos Africanos).
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GUARESCHI, Pedrinho. Sociologia crítica: alternativas de mudança. 51ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.
_________ e outros. Os construtores da Informação: meios de comunicação, ideologia e ética. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
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PEREIRA, Francisco José. Apartheid o horror branco na África do Sul. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense S. A., 1985.
SAMPSON, Anthony. O negro e o ouro: magnatas, revolucionários e o apartheid. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
SARAIVA, José Flávio Sombra. A África e o Brasil: encontros e encruzilhadas. In: África Contemporânea história, política e cultura. Ciências e Letras. Revista da FAPA. Porto Alegre: 1998.

Periódicos
Correio do Povo. Porto Alegre: 1976.
Jornal Zero Hora. Porto Alegre: 1976.

Site:  www.globo.com.br.



à Simone Drebis Cezimbra, pós-gradua em História Afro-Asiática pela FAPA, atualmente é Professora de História na Escola La Salle -Sapucaia do Sul.
[1] Significa separação em africâner, língua derivada do holandês, criada no século XVIII, pelos holandeses que colonizaram a África do Sul.
[2] Significa brancos descendentes de holandeses que vivem na África do Sul.
[3] CORNEVIN Marianne. Apartheid: poder e falsificação históricas. Lisboa: Edições 70/Unesco, 1979, p. 19.
[4] Guetos, “lares negros” ou “reservas tribais”, que confinava a população negra a partir de sua etnia.
[5] SAMPSON, 1988: 93.
[6] Ibidem, p. 124.
[7] SAMPSON, 1988: 130.
[8] JONGE, 1991: 75.
[9] LOPES, 1990: 30
[10] Conforme entrevista ao programa Globo Repórter, site:  www.globo.com.br.
[11] Repercutir no sentido da possibilidade de sentir indiretamente sua ação ou influência junto à sociedade.
[12] A primeira página (ou a capa) do Correio do Povo era destinada às notícias internacionais, assim também as informações sobre os fatos ocorridos em Soweto geralmente foram encontradas neste espaço.
[13] Correio do Povo, Porto Alegre, p. 3, 17 de junho de 1976.
[14] Idem
[15] Idem.
[16] Correio do Povo, Porto Alegre, capa, 19 de junho de 1976.
[17] BURNS, Jonh F. Correio do Povo, Porto Alegre, p.3, 20 de junho de 1976.
[18] Multidão em desordem.
[19] Correio do Povo, Porto Alegre, capa, 23 de junho de 1976.
[20] Idem
[21] Correio do Povo, Porto Alegre, p. 3, 24 de junho de 1976.
[22] Idem.
[23] Idem.
[24] Correio do Povo, Porto Alegre, p. 2, 27 de junho de 1976.
[25] Idem.
[26] Idem
[27] Zero Hora, Porto Alegre, p. 16, 17 de junho de 1976.
[28] Zero Hora, Porto Alegre, capa, 18 de junho de 1976.
[29] Hora, Porto Alegre, p. 14, 18 de junho de 1976.
[30] Idem.
[31] Idem.
[32] Idem.
[33] Idem.
[34] Zero Hora, Porto Alegre, p. 13, 19 de junho de 1976.
[35] Newton Carlos possuía uma coluna diária no jornal que tratava sobre os assuntos mais relevantes do período.
[36] CARLOS, Newton, Zero Hora, Porto Alegre, p. 13, 23 de junho de 1976.
[37] Idem.
[38] Idem.
[39] Idem.
[40] Ao contrário do que ocorria no Correio do Povo onde as notícias internacionais eram escritas na integra na primeira página (ou capa) do jornal, o periódico Zero Hora utiliza a sua capa para dar destaques as principais manchetes do dia a notícia na integra encontram-se na parte interna do jornal. Dessa forma os assuntos que constam em sua primeira página são os que recebem maior destaque.
[41] GUARESCHI, 2002, p.139.
[42] SARAIVA, 1998, p. 130.

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